Seguros
19/05/2026
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Volta do El Niño já acende alerta e pode deixar os seguros mais caros no Brasil

Aquecimento do Oceano Pacífico aumenta chance de retorno do fenômeno climático e pressiona seguradoras, que já revisam preços e renovação de apólices diante do risco de novas enchentes, secas e tempestades.

Neste mês de maio, cientistas passaram a observar sinais claros de aquecimento no Oceano Pacífico, o que reacendeu o alerta para a possível volta do El Niño ainda em 2026. Se o El Niño realmente se confirmar em 2026, ele não trará apenas mudanças no clima. Pode também redesenhar o mapa de risco econômico e deixar o seguro mais caro para empresas, produtores rurais e consumidores em todo o país.

O Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) colocou o sistema em status de “El Niño Watch”, uma espécie de vigilância climática que indica alta probabilidade de formação do fenômeno. A estimativa oficial aponta 82% de chance de desenvolvimento até julho deste ano e 96% de permanência entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.

O El Niño acontece quando as águas da superfície do Oceano Pacífico, principalmente na faixa central e leste da região equatorial, ficam mais quentes do que o normal por um período prolongado. Esse aquecimento altera a circulação da atmosfera e muda o regime de chuvas em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. Em maio, o índice chamado Niño 3.4, usado para medir esse aquecimento, já estava em 0,4 grau Celsius, muito próximo do limite técnico de 0,5 grau Celsius usado para caracterizar oficialmente o fenômeno. Na parte mais leste do oceano, o aquecimento já chegava a +1 grau Celsius.

Outro sinal importante observado pela NOAA foi o aumento da temperatura abaixo da superfície do mar pelo sexto mês consecutivo. Esse calor acumulado costuma subir nas semanas seguintes e fortalecer ainda mais o El Niño. Em linguagem simples, os especialistas dizem que o oceano está “armando o cenário”.

Essa possibilidade preocupa não apenas meteorologistas, mas também seguradoras, produtores rurais, empresas de energia e o setor de transportes.

Quando há mais enchentes, secas, vendavais, granizo, incêndios florestais e ondas de calor, aumenta também o número de prejuízos e pedidos de indenização. Isso faz com que as seguradoras revisem seus cálculos de risco, elevem preços e se tornem mais seletivas na renovação das apólices, que são os contratos de seguro.

A resseguradora alemã Munich Re, uma das maiores do mundo no setor, mantém o alerta de que o crescimento das perdas não está vindo apenas de grandes catástrofes, como furacões e terremotos, mas principalmente dos chamados riscos secundários. São eventos menores, porém mais frequentes, como tempestades localizadas, enchentes urbanas, secas prolongadas e incêndios florestais, que juntos geram prejuízos cada vez maiores.

Segundo relatório divulgado pela empresa em janeiro de 2026, os desastres naturais de 2025 provocaram perdas globais de 224 bilhões de dólares, sendo cerca de 108 bilhões de dólares cobertos por seguradoras. Tempestades severas, enchentes e incêndios florestais foram os principais responsáveis por essa pressão sobre o mercado global de seguros.

O temor cresce porque o Brasil ainda sente os efeitos da última grande atuação do El Niño, entre 2023 e 2024. O período deixou marcas históricas no país, com enchentes devastadoras no Sul, seca severa no Norte e no Nordeste, além de ondas de calor intensas em várias regiões.

Entre abril e maio de 2024, o Rio Grande do Sul viveu a maior tragédia climática de sua história recente, com cidades inteiras alagadas, destruição de estradas, pontes, empresas e milhares de famílias fora de casa. Ao mesmo tempo, o Amazonas enfrentava uma das secas mais severas já registradas, com rios em níveis críticos, dificuldade no transporte fluvial, isolamento de comunidades e prejuízos no abastecimento de alimentos e combustíveis. O Rio Negro chegou a níveis extremamente baixos.

O grande receio dos especialistas é que parte desse cenário se repita justamente quando muitas cidades e famílias ainda nem conseguiram se recuperar totalmente das perdas dos últimos dois anos.

Quando grandes resseguradoras internacionais recalculam o risco climático, esse impacto chega rapidamente ao mercado brasileiro. A Munich Re não anunciou um reajuste específico para o Brasil, mas a reavaliação global já começa a encarecer coberturas e dificultar renovações, principalmente em setores mais expostos ao clima.

Os primeiros ramos a sentir esse efeito costumam ser o seguro rural e o seguro patrimonial empresarial. Isso acontece porque são áreas diretamente afetadas por secas, enchentes e tempestades e também porque dependem fortemente do resseguro internacional, que funciona como um seguro das próprias seguradoras.

No campo, lavouras de soja, milho, arroz, café e cana-de-açúcar podem sofrer perdas importantes com excesso ou falta de chuva. Isso aumenta a chamada sinistralidade, que é o volume de indenizações pagas pelas seguradoras. Como consequência, o seguro agrícola tende a ficar mais caro, com maior exigência para contratação e até recusa de cobertura em áreas consideradas de maior risco.

Nas empresas, galpões logísticos, centros de distribuição, indústrias e imóveis localizados em regiões com histórico de enchentes, alagamentos, vendavais e granizo também podem enfrentar reajustes mais pesados e maior dificuldade para renovar seus contratos.

Até o seguro de automóvel pode sofrer impacto. Enchentes urbanas, queda de árvores, granizo e tempestades aumentam bastante a frequência de sinistros, que são os prejuízos cobertos pelo seguro. Isso leva seguradoras a elevar franquias, revisar critérios de aceitação e encarecer a renovação das apólices.

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