A doença hormonal que afeta cerca de uma em cada oito mulheres no mundo, somando mais de 170 milhões de pessoas, acaba de passar por uma mudança histórica de nome. A antiga Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) agora passa a ser chamada de Síndrome Ovariana Poliendócrina Metabólica (PMOS, na sigla em inglês).
A alteração foi publicada na renomada revista científica The Lancet e anunciada no Congresso Europeu de Endocrinologia, realizado em Praga, no dia 12 de maio, após 14 anos de debates entre especialistas e grupos de pacientes de seis continentes. O estudo foi liderado pela endocrinologista professora Helena Teede, diretora do Centro Monash de Pesquisa e Implementação em Saúde, em Melbourne, na Austrália.
A mudança não é apenas estética ou técnica. Ela busca corrigir uma confusão que acompanha a doença há décadas e que, segundo médicos e pacientes, prejudicava o diagnóstico e o tratamento. A expectativa dos especialistas é que o novo nome ajude a melhorar o entendimento público sobre a doença, facilite diagnósticos mais rápidos e contribua para tratamentos mais adequados.
O nome antigo levava muitas mulheres a acreditarem que o problema estava apenas relacionado à presença de cistos nos ovários. Na prática, a síndrome é muito mais complexa e envolve alterações hormonais, metabólicas e reprodutivas que podem afetar várias áreas da saúde.
Segundo Teede, o termo “policístico” era enganoso e ajudava a atrasar diagnósticos, além de direcionar a atenção apenas para os ovários, quando o problema envolve o corpo inteiro.
Quando a Síndrome dos Ovários Policísticos foi descrita pela primeira vez, em 1935, os médicos acreditavam que se tratava principalmente de uma doença ginecológica ligada aos ovários. Com o avanço das pesquisas, ficou claro que a condição é, na verdade, um distúrbio hormonal amplo, que afeta o funcionamento de vários sistemas do organismo.
Os principais hormônios envolvidos são a insulina, responsável por ajudar o corpo a controlar os níveis açúcar, proteínas e gorduras, e os andrógenos, conhecidos como hormônios sexuais masculinos, mas que também existem naturalmente no organismo feminino.
Mulheres com a síndrome costumam apresentar excesso desses hormônios, o que pode provocar acne, aumento de pelos no rosto e no corpo, queda de cabelo, menstruação irregular, dificuldade para engravidar e ganho de peso.
Além disso, a resistência à insulina — quando o organismo tem dificuldade para utilizar esse hormônio corretamente — é muito comum nesses casos e aumenta o risco de diabetes tipo 2. A condição também pode elevar o risco de pressão alta, colesterol alto, doenças cardiovasculares e até câncer de endométrio, que é o tecido que reveste o útero.
A mudança do nome para Síndrome Ovariana Poliendócrina Metabólica foi construída com a participação de 50 sociedades médicas e grupos de pacientes em todo o mundo. Pesquisas conduzidas pela professora Helena Teede mostraram que a maioria dos profissionais de saúde e das próprias pacientes defendia essa atualização.
Segundo o professor Colin Duncan, do Centro de Pesquisa em Saúde Reprodutiva da Universidade de Edimburgo, na Escócia, a síndrome não está relacionada apenas à fertilidade, como muitas pessoas imaginam.
Em entrevista ao jornal The Guardian, ele explicou que muitas pacientes chegam ao consultório com sangramentos menstruais prolongados e irregulares, consequência da ausência de um ciclo hormonal normal.
Duncan também destaca que mulheres com essa condição costumam ganhar peso com mais facilidade e têm mais dificuldade para emagrecer, porque queimam menos calorias após a alimentação em comparação com outras pessoas. Isso pode agravar ainda mais os sintomas e aumentar o risco de obesidade e problemas como apneia do sono.
A síndrome também afeta a saúde mental. Estudos mostram maior risco de ansiedade, depressão e transtornos alimentares, especialmente porque muitas pacientes enfrentam frustração com o próprio corpo, dificuldade para perder peso e demora no diagnóstico correto.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a condição afeta entre 10% e 13% das mulheres em idade reprodutiva, mas cerca de 70% delas nem sabem que têm a doença. A síndrome também pode ocorrer em várias pessoas da mesma família, o que indica forte influência genética, embora os pesquisadores ainda busquem identificar exatamente quais genes estão envolvidos.