Economia
19/05/2026
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Petróleo caro, inflação em alta e juros pressionam Brasil e Estados Unidos

Conflito no Oriente Médio e resistência da inflação aumentam o risco de juros mais altos por mais tempo e acendem alerta para a economia global.

 

A última semana foi marcada pelo aumento das preocupações com a inflação e com a tensão geopolítica internacional. Segundo a análise Weekly Macro View, produzida por Claudio Ferraz, sócio e economista-chefe da Galapagos Capital, o cenário mostra que o choque no preço da energia, principalmente do petróleo, começa a se espalhar pela economia e pode manter os juros elevados por mais tempo tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil.

Antes de analisar os números da inflação, Claudio Ferraz destaca que o cenário geopolítico continua sendo uma das principais fontes de incerteza para o mercado financeiro. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, endureceu o discurso contra o Irã após rejeitar uma resposta iraniana a uma proposta anterior. Trump afirmou que o bloqueio americano no Estreito de Ormuz é totalmente eficaz e declarou que o Irã não terá acesso a armas nucleares, de forma pacífica ou não.

O Estreito de Ormuz é uma das rotas marítimas mais importantes do mundo para o transporte de petróleo. Cerca de um terço do petróleo consumido globalmente passa por essa região. Quando há ameaça de bloqueio ou conflito nessa área, o preço do petróleo sobe rapidamente, porque o mercado teme problemas no abastecimento.

Além disso, o Irã ampliou a área marítima sob seu controle e novos ataques com drones voltaram a acontecer na região. Houve também grande expectativa em torno da reunião entre Trump e Xi Jinping, presidente da China, já que os Estados Unidos buscavam apoio chinês para pressionar o Irã. No entanto, o encontro terminou sem avanços concretos sobre a situação em Ormuz.

Com isso, cresceram os sinais de uma possível nova escalada militar envolvendo o Irã, o que mantém o petróleo Brent, uma das principais referências internacionais do preço do barril, acima de 110 dólares no início desta semana. Quando o petróleo sobe, aumentam também os custos de transporte, combustíveis, energia e produção industrial, o que pressiona a inflação em diversos países.

Nos Estados Unidos, o principal destaque econômico foi o Índice de Preços ao Consumidor (Consumer Price Index – CPI) de abril, que mede a inflação paga pelas famílias. A inflação cheia subiu 0,64% no mês e chegou a 3,8% no acumulado de 12 meses. Já o núcleo da inflação, que exclui preços mais voláteis como alimentos e energia para mostrar uma tendência mais estrutural, avançou 0,38% no mês e alcançou 2,8% em 12 meses.

Segundo Claudio Ferraz, os dois indicadores caminham na direção oposta ao desejado pelo Federal Reserve (Fed), que é o banco central dos Estados Unidos. O principal problema está na composição dessa inflação. A energia continua sendo a maior fonte de pressão, mas já começam a aparecer efeitos indiretos, quando o aumento do petróleo se espalha para outros setores da economia.

A presidente do Fed de Boston, Susan Collins, adotou um discurso mais duro, conhecido no mercado como “hawkish”, termo usado quando a autoridade monetária demonstra maior preocupação com a inflação e menos disposição para cortar juros. Ela afirmou que o comitê tem pouca paciência para ignorar mais um choque de oferta, depois de cinco anos de inflação acima da meta, e disse que até mesmo novas altas de juros podem ser necessárias.

Isso significa que o Fed continua em pausa, sem reduzir juros por enquanto, e que ficou ainda mais difícil esperar um corte no curto prazo. O mercado já começa a considerar a possibilidade de novas altas de juros no futuro, caso a inflação continue resistente.

No Brasil, o principal destaque foi o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), conhecido como a prévia da inflação oficial. O indicador subiu 0,77% em abril. Apesar de o número principal ter vindo um pouco abaixo do esperado, a leitura geral foi considerada negativa.

A média dos núcleos da inflação subiu 0,5%, enquanto a média móvel trimestral anualizada e ajustada sazonalmente passou de 4,8% para 5,3%. Isso significa que a inflação mais persistente continua acelerando. Nos serviços subjacentes, que excluem oscilações temporárias e mostram a tendência real dos preços, a alta foi de 5,2% para 5,8%.

Já os serviços intensivos em mão de obra, como restaurantes, salões de beleza, educação e cuidados pessoais, continuam em torno de 7%. Isso mostra que o mercado de trabalho aquecido, com mais emprego e renda, continua pressionando os preços no país.

Claudio Ferraz explica que esse cenário fica ainda mais desafiador porque a atividade econômica segue forte. O varejo de abril encerrou o primeiro trimestre com alta de 1,3%, indicando consumo aquecido. A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) apresentou resultado um pouco abaixo do esperado, mas ainda assim a expectativa é de que o Produto Interno Bruto (PIB), que mede tudo o que o país produz em bens e serviços, continue mostrando crescimento robusto neste ano.

O Boletim Focus, relatório semanal do Banco Central que reúne as projeções do mercado financeiro, também refletiu essa piora no cenário. A expectativa de inflação para 2028 subiu para 3,75%, enquanto a previsão para a taxa Selic, que é a taxa básica de juros da economia brasileira, em 2026 avançou para 13,25% ao ano.

Isso mostra que o mercado já começa a reduzir a expectativa de cortes mais fortes de juros no futuro. Para Claudio Ferraz, o risco ainda é de novas revisões para cima nessas projeções, principalmente se o cenário externo continuar pressionado pelo petróleo caro e pela persistência da inflação.

Nos próximos dias, o Brasil terá uma agenda econômica mais fraca, mas será importante acompanhar possíveis declarações dos membros do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável por definir a Selic. No exterior, o destaque será a ata do Fed, documento que mostra os detalhes da última reunião sobre juros, além dos novos dados de inflação na Europa e dos índices de atividade econômica conhecidos como Purchasing Managers’ Index (PMI), que ajudam a medir o ritmo da economia.

Enquanto isso, o mercado continua atento ao conflito no Oriente Médio, que ainda parece longe de uma solução e segue sendo um dos principais riscos para a economia mundial.

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