A expansão da inteligência artificial (IA) tem resultado em novas oportunidades para o mercado de seguros: proteção de data centers – grandes estruturas que concentram servidores e equipamentos responsáveis por armazenar e processar enormes volumes de dados. No Brasil, esse mercado cresce rapidamente, impulsionado tanto pela necessidade de infraestrutura para a IA quanto pelo interesse de empresas estrangeiras em instalar operações no país.
Dados do Ministério de Minas e Energia, o Brasil já tem 205 data centers em operação e mais de R$ 114,5 bilhões em investimentos em empreendimentos em construção. Esse movimento aumenta a demanda por seguros capazes de proteger instalações que podem concentrar bilhões de reais em equipamentos e cuja paralisação pode provocar prejuízos milionários em poucas horas.
Não existe, em geral, um produto padronizado chamado “seguro para data center”. A proteção costuma ser formada por uma combinação de seguros de grandes riscos, definida de acordo com o tamanho, a localização e as características de cada operação. Entre as coberturas necessárias estão proteção patrimonial, equipamentos, incêndio, danos elétricos, interrupção de negócios, responsabilidade civil e riscos cibernéticos.
A necessidade de tantas coberturas está relacionada à própria complexidade dessas instalações. Um problema no fornecimento de energia ou no sistema de refrigeração, por exemplo, pode interromper uma operação que movimenta milhões de reais por hora. Em data centers voltados para inteligência artificial, o risco é ainda maior porque os equipamentos de computação de alto desempenho têm custos elevados e precisam funcionar continuamente.
O crescimento do setor brasileiro já chama a atenção internacional. Um levantamento publicado pelo GRI Institute em julho de 2026 estima que o Brasil concentre 71% dos projetos de data centers em construção na América Latina. A capacidade instalada no país está entre 800 megawatts (MW) e 1 gigawatt (GW), representando cerca de 1,5% da capacidade mundial e 48% da capacidade instalada na América Latina.
A expectativa é de continuidade desse movimento. A Ascenty anunciou, em maio, a construção de quatro novos data centers na região de São Paulo, com capacidade conjunta de 150 MW e investimento de US$ 1,2 bilhão. A Tecto anunciou cinco novos projetos no Brasil em 2026, além de dois que já estavam em andamento, com previsão de investir US$ 2 bilhões entre 2026 e 2028.
O avanço brasileiro faz parte de uma expansão global. Segundo a Allianz Commercial, divisão de seguros corporativos do Grupo Allianz, o mercado de seguros relacionado a data centers deve crescer dos atuais cerca de US$ 11 bilhões para mais de US$ 24 bilhões até 2030. A expansão da inteligência artificial é apontada como um dos principais fatores desse crescimento.
A dimensão dos novos empreendimentos ajuda a explicar o potencial desse mercado. Um único campus de data centers voltado para inteligência artificial pode ter custo de construção superior a US$ 20 bilhões. Depois da instalação dos equipamentos de computação de alto desempenho, o valor que precisa ser protegido pode aumentar ainda mais.
Com isso, o seguro deixa de olhar apenas para o prédio. As seguradoras precisam avaliar toda a estrutura necessária para manter o data center funcionando, incluindo fornecimento de energia, sistemas de refrigeração, baterias, equipamentos, conexões de fibra óptica, obras, testes e continuidade das operações.
Os dados de sinistros analisados pela Allianz Commercial mostram a dimensão dos riscos. Em uma amostra de aproximadamente € 700 milhões em prejuízos, os incêndios responderam por mais da metade das perdas analisadas. Catástrofes naturais apareceram em seguida, acompanhadas por atos intencionais, incluindo crimes e incidentes cibernéticos, e por falhas no fornecimento de energia.
Quando se considera a frequência dos sinistros, os danos causados pela água aparecem como a principal causa na análise da seguradora, seguidos por atos intencionais, incêndios e falhas de equipamentos. Já a interrupção dos negócios foi o fator que mais contribuiu para aumentar o tamanho das perdas. Isso acontece porque o prejuízo não se limita ao equipamento danificado: enquanto o data center está parado, seus clientes também podem deixar de operar.
Outro desafio é a concentração de diferentes estruturas no mesmo local. Grandes complexos, conhecidos como data centers de hiperescala, e instalações de colocation, que abrigam equipamentos de diferentes clientes, podem reunir servidores, sistemas de refrigeração, infraestrutura elétrica e atividades de construção em uma mesma área. Um único incidente, portanto, pode provocar sinistros em várias modalidades de seguro ao mesmo tempo.
A Allianz Commercial cita casos envolvendo danos em sistemas externos de refrigeração, incêndios relacionados a trabalhos que geram calor e atrasos na entrada em operação provocados por falhas no fornecimento de energia. Em alguns desses casos, os prejuízos individuais ficaram entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões.
Os riscos climáticos também entram nessa conta. Segundo a Allianz Commercial, cerca de 79% da capacidade mundial de data centers está instalada em regiões com maior risco de catástrofes naturais. Além disso, 54% estão expostas a estresse crônico provocado por calor e seca.
Para as seguradoras, isso significa que avaliar apenas o valor do prédio não é suficiente. É preciso entender o que está concentrado dentro da instalação e quais estruturas externas são indispensáveis para seu funcionamento. Uma interrupção de energia, por exemplo, pode afetar simultaneamente sistemas de refrigeração, servidores e operações de diferentes clientes.
Por isso, a avaliação do risco começa antes mesmo de o data center entrar em funcionamento. A localização, a disponibilidade de energia, a proteção contra incêndios, os sistemas de refrigeração, as rotas de fibra óptica e os planos para manter a atividade durante uma emergência passam a ser elementos importantes na definição do seguro.
A expansão desse mercado ocorre junto com o aumento dos investimentos globais em data centers. A Allianz Commercial estima que o investimento anual no setor passe de cerca de US$ 500 bilhões em 2024 para mais de US$ 1 trilhão em 2027. Estados Unidos e China devem responder por cerca de 62% do aumento da capacidade global até 2030, enquanto Europa e Ásia-Pacífico também ampliam seus investimentos.