Saúde
08/09/2026
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Exame de sangue pode detectar sinais de Alzheimer antes dos esquecimentos

Teste que mede proteínas ligadas à doença já chegou ao Brasil, mas há diferenças importantes na forma como os Estados Unidos e o Brasil regulam essa tecnologia e especialistas alertam contra o uso como simples check-up. Especialistas alertam que o exame deve fazer parte de uma avaliação médica, e não substituir a consulta, o histórico do paciente e a análise de outros exames.

Um simples exame de sangue está mudando a forma como os médicos podem investigar a doença de Alzheimer. A tecnologia mede no sangue proteínas relacionadas às alterações que acontecem no cérebro, como formas da proteína tau e da proteína beta-amiloide. Essas substâncias funcionam como sinais biológicos da doença e podem ajudar o médico a identificar a presença de alterações associadas ao Alzheimer antes que o quadro esteja avançado.

A principal vantagem é a facilidade. Em vez de retirar líquido da coluna por meio de uma punção lombar ou recorrer diretamente a um exame de imagem especializado, como a tomografia por emissão de pósitrons (PET), o paciente fornece apenas uma amostra de sangue retirada da veia do braço. Isso torna a investigação menos invasiva e, potencialmente, mais acessível.

Mas existe uma diferença importante entre detectar sinais biológicos da doença e dizer que uma pessoa tem Alzheimer. O resultado do exame não deve ser analisado sozinho. Ele precisa ser interpretado junto com os sintomas, o histórico médico e outros exames. A Associação de Alzheimer dos Estados Unidos recomenda o uso de biomarcadores sanguíneos principalmente na investigação de pessoas que já apresentam comprometimento cognitivo e estão sendo avaliadas em serviços especializados.

Nos Estados Unidos, a tecnologia já recebeu uma autorização específica da Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA), órgão responsável pela regulação de medicamentos e dispositivos médicos no país. Em maio de 2025, a FDA autorizou o primeiro teste de sangue destinado a auxiliar no diagnóstico da doença de Alzheimer. O exame, chamado Lumipulse G pTau217/β-Amyloid 1-42 Plasma Ratio, mede duas proteínas no sangue e calcula a relação entre elas para estimar a presença de placas de beta-amiloide no cérebro.

A autorização americana, porém, veio acompanhada de limites claros. O teste foi autorizado para adultos com 55 anos ou mais que apresentam sinais e sintomas de comprometimento cognitivo e estão sendo avaliados em um contexto especializado. A FDA afirma expressamente que o exame não deve ser usado como teste de rastreamento em pessoas sem sintomas nem como diagnóstico definitivo isolado. O resultado precisa ser interpretado junto com outras informações clínicas.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regula no país os produtos para diagnóstico in vitro, incluindo reagentes, kits e equipamentos utilizados nos exames laboratoriais. Isso significa que a existência de um teste disponível em um laboratório brasileiro não deve ser interpretada automaticamente como uma aprovação específica da Anvisa para “diagnosticar Alzheimer” em qualquer pessoa.

Um laboratório pode oferecer um teste de biomarcadores, mas isso não transforma o exame em um check-up capaz de confirmar sozinho que uma pessoa saudável desenvolverá Alzheimer.

O preço ainda é outro obstáculo. No mercado brasileiro, os exames de sangue para biomarcadores de Alzheimer encontrados em laboratórios privados podem custar entre R$ 2.700 e R$ 3.600, dependendo do teste e do laboratório. Esse valor é pago pelo paciente quando o exame não tem cobertura pelo plano de saúde.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), responsável pela regulação dos planos de saúde no país, define uma lista de procedimentos de cobertura obrigatória, e a presença de um exame no mercado não significa, por si só, que ele esteja obrigatoriamente coberto pelas operadoras.

Nos Estados Unidos, os valores também podem ser altos. Estimativas citadas para exames de biomarcadores sanguíneos ficam na faixa de US$ 600 a US$ 1.200, embora a cobertura possa variar de acordo com o teste, o seguro e a situação clínica do paciente.

A tecnologia ganhou importância principalmente porque novos medicamentos contra o Alzheimer podem retardar a progressão da doença em determinados pacientes. Para decidir se esses tratamentos são apropriados, o médico precisa confirmar se existem alterações relacionadas à proteína beta-amiloide no cérebro. Os biomarcadores no sangue podem facilitar essa investigação e, em determinadas situações, reduzir a necessidade de exames mais invasivos ou caros.

No teste autorizado pela FDA, por exemplo, o desempenho foi avaliado em 499 amostras de plasma de adultos com comprometimento cognitivo. Entre os pacientes com resultado positivo, 91,7% apresentavam placas de beta-amiloide confirmadas por exame de PET ou análise do líquido cerebrospinal. Entre aqueles com resultado negativo, 97,3% não apresentavam essas placas pelos métodos de comparação. Mesmo assim, a FDA ressalta que podem ocorrer resultados falsos positivos e falsos negativos.

Um resultado positivo, portanto, não significa que a pessoa terá necessariamente uma evolução rápida da doença, nem permite prever sozinha quando os sintomas aparecerão. Da mesma forma, um resultado negativo não elimina a necessidade de avaliação médica quando existem sintomas preocupantes. A interpretação depende do quadro completo do paciente.

É justamente por isso que médicos e a Associação de Alzheimer fazem um alerta contra a realização do exame por curiosidade. A recomendação é que o biomarcador seja solicitado depois de uma avaliação clínica e utilizado quando houver uma razão médica para investigar Alzheimer. A entidade recomenda que os exames sejam pedidos e interpretados por profissionais de saúde dentro do contexto clínico do paciente.

O cuidado é importante porque receber um resultado indicando alterações relacionadas ao Alzheimer sem apresentar sintomas pode provocar ansiedade, medo e decisões precipitadas. Além disso, nem todos os testes comerciais têm o mesmo desempenho. A própria Associação de Alzheimer afirma que há diferenças importantes na precisão dos exames disponíveis e que muitos ainda não atingem os níveis de desempenho considerados adequados para determinadas finalidades clínicas.

A grande novidade, portanto, não é simplesmente descobrir o Alzheimer com uma coleta de sangue. É poder usar uma amostra muito mais simples para encontrar sinais biológicos da doença e ajudar o médico a chegar mais cedo a um diagnóstico em pacientes que realmente precisam ser investigados.

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