O ambiente econômico global ficou mais incerto na semana encerrada em 4 de setembro. O conflito entre Estados Unidos e Irã voltou a se intensificar, com novos ataques na região do Estreito de Ormuz, enquanto os mercados passaram a rever as expectativas para os juros americanos diante de dados de emprego e atividade mais fortes. No Brasil, os indicadores mostraram perda de ritmo da economia, mas as expectativas de inflação continuam pressionando o Banco Central. O cenário é analisado na coluna semanal Weekly Macro View, produzida por Claudio Ferraz, sócio e economista-chefe da Galapagos Capital.
Segundo Claudio Ferraz, forças americanas atingiram posições iranianas no Estreito de Ormuz, e o Irã respondeu com ataques a bases americanas na Jordânia. Dois petroleiros, um chinês e outro coreano, também foram atingidos na região nos últimos dias. O tráfego de embarcações pelo Estreito de Ormuz continua bem abaixo do nível observado antes da guerra, embora existam sinais de operações que permitem ampliar o fluxo de petróleo.
Mesmo com essa retomada parcial do transporte, o risco geopolítico continua elevado. O petróleo Brent, referência internacional para os preços da commodity, subiu com força durante a semana e chegou próximo de US$ 95 por barril. Para Claudio Ferraz, a situação ainda é incerta e indica que o choque pode ser persistente, sem uma solução definitiva no curto prazo. Qualquer novo episódio que comprometa o transporte de petróleo pelo Estreito de Ormuz pode aumentar novamente a pressão sobre os preços e, consequentemente, sobre a inflação mundial.
Nos Estados Unidos, porém, o principal assunto da semana foi a mudança nas expectativas para a próxima reunião do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, marcada para setembro. O mercado passou por um movimento de idas e vindas conforme os dirigentes do Fed divulgaram suas avaliações sobre a economia e a inflação.
A semana começou sob a influência de um discurso considerado mais duro de Kevin Warsh em Jackson Hole. Na avaliação apresentada por Ferraz, Warsh descreveu a economia americana como resistente, próxima do pleno emprego e ainda convivendo com uma inflação que não converge claramente para a meta. A percepção inicial foi de que haveria menos espaço para uma mudança na política de juros.
As declarações de outros dirigentes do Fed inicialmente reforçaram essa avaliação. Michael Barr, por exemplo, afirmou que, sem uma moderação convincente da inflação, o banco central americano deveria agir de forma decisiva. Já John Williams adotou uma interpretação um pouco diferente. Para ele, a alta dos juros de longo prazo está mais relacionada à força dos investimentos em inteligência artificial do que a um aumento das expectativas de inflação. Williams também avaliou que a inflação acima da meta tem sido influenciada principalmente por tarifas e energia, sem sinais relevantes de efeitos secundários.
A mudança de tom veio na quinta-feira, 3 de setembro, com Christopher Waller. Segundo Claudio Ferraz, o discurso de Waller foi mais favorável a uma flexibilização dos juros do que sua manifestação anterior, em julho. O dirigente destacou sinais de desaceleração da inflação e considerou positiva a queda do núcleo da inflação, que passou de 4,8% em fevereiro para 3,05% em julho, considerando a média de três meses anualizada.
O quadro, no entanto, voltou a mudar na sexta-feira, 4 de setembro, com a divulgação dos dados de emprego dos Estados Unidos, conhecidos como payroll. O mercado de trabalho apresentou resultado mais forte do que o esperado, com geração de mais de 160 mil vagas, diante de uma expectativa próxima de 55 mil. Os números dos dois meses anteriores também foram revisados para cima.
Para Ferraz, o resultado reforçou a percepção de que a economia americana continua resistente e levou o mercado a recalibrar novamente suas expectativas para a reunião de setembro do Fed. Outros dados divulgados na semana seguiram na mesma direção. O índice de atividade do setor de serviços dos Estados Unidos, medido pelo Instituto de Gestão de Suprimentos (ISM), subiu para 55,4 pontos, maior nível desde fevereiro. Os novos pedidos também apresentaram a melhor leitura desde 2023, enquanto o índice de preços pagos alcançou 72,6 pontos, o maior nível em quatro anos.
Na avaliação de Claudio Ferraz, essa combinação preocupa porque mostra uma economia em que a demanda continua resistente, enquanto os custos permanecem elevados. Ao mesmo tempo, não há uma deterioração significativa do mercado de trabalho que justifique uma mudança mais rápida na política de juros. É justamente esse equilíbrio entre atividade forte e inflação ainda pressionada que torna mais difícil prever os próximos passos do Fed.
Na Europa, a inflação cheia acelerou de 2,9% para 3,3% na semana encerrada em 4 de setembro. Por outro lado, o núcleo da inflação, que exclui alguns preços mais voláteis e ajuda a mostrar a tendência dos preços, surpreendeu positivamente ao ficar em 2,4%. Ferraz mantém a avaliação de que o Banco Central Europeu (BCE) deve elevar os juros em 0,25 ponto percentual em setembro, diante de uma atividade econômica ainda resistente.
No Japão, a expectativa também é de aumento de juros pelo Banco Central do Japão (BOJ), em 0,25 ponto percentual. Claudio Ferraz mantém esse cenário como referência para sua análise.
No Brasil, os indicadores divulgados na semana mostraram uma economia perdendo força. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,5% no segundo trimestre, acima das expectativas do mercado. O resultado, porém, foi impulsionado principalmente pela agropecuária, enquanto a demanda doméstica privada, que reúne consumo e investimentos e exclui estoques, apresentou queda em relação ao primeiro trimestre.
O consumo das famílias foi um dos principais pontos negativos, com recuo de 0,4%. Para Ferraz, quando se retiram do cálculo os efeitos da agropecuária e da indústria extrativa, o crescimento do PIB teria sido ainda menor, próximo de 0,3%. O resultado reforça a percepção de que a economia brasileira começa a perder ritmo à medida que os efeitos dos juros elevados aparecem com mais intensidade.
A produção industrial também confirmou essa perda de fôlego. Em julho, o setor cresceu apenas 0,2%, resultado próximo da estimativa da Galapagos Capital, mas abaixo da expectativa média do mercado. Além disso, o chamado carregamento estatístico para o terceiro trimestre ficou negativo em aproximadamente 1,3%, o que indica que a indústria parte para o novo trimestre com uma herança desfavorável do período anterior.
Do lado da política monetária, a semana não trouxe uma nova sinalização do Banco Central. Diante desse cenário, Claudio Ferraz mantém a expectativa de continuidade do processo de redução dos juros, com outro corte de 0,25 ponto percentual em setembro. A perda de força da atividade econômica, em princípio, abre espaço para novos cortes. O problema é que a inflação e as expectativas para os preços continuam atuando na direção contrária.
O Boletim Focus, pesquisa do Banco Central que reúne as projeções de economistas para a economia brasileira, mostrou nova alta na expectativa de inflação para 2027, que passou para 4,28%. A projeção para a inflação acumulada nos 12 meses seguintes também subiu, para 4,53%.
Claudio Ferraz chama atenção ainda para a possibilidade de uma reaceleração da inflação a partir de setembro. Nesse cenário, a inflação acumulada em 12 meses poderia voltar a ficar acima do teto da meta. Entre os riscos estão os efeitos de um possível El Niño forte, o repasse de preços dos combustíveis e o aumento dos custos de mão de obra associado a mudanças na legislação discutidas no Congresso. Para Ferraz, essa combinação deve limitar o espaço para uma redução mais intensa dos juros.
Olhando para as próximas semanas, Claudio Ferraz destaca como pontos de atenção os novos dados de inflação dos Estados Unidos, especialmente o Índice de Preços ao Consumidor (CPI), previsto para 11 de setembro, e a decisão do Fed, em 16 de setembro. Na mesma janela, o Banco Central Europeu e o Banco Central do Japão também devem tomar decisões sobre suas respectivas políticas de juros.
No Brasil, a combinação entre uma atividade econômica mais fraca e expectativas de inflação ainda em alta deve influenciar a comunicação do próximo Comitê de Política Monetária (Copom), responsável por definir a taxa básica de juros do país. Para Ferraz, também será importante acompanhar uma nova rodada de pesquisas eleitorais e os possíveis impactos das expectativas políticas sobre os mercados.
Por fim, o cenário geopolítico continuará no radar. Novos ataques ou acontecimentos no Estreito de Ormuz que coloquem em risco o transporte de petróleo podem elevar novamente os preços da commodity e aumentar a pressão sobre a inflação global. Para Claudio Ferraz, é justamente a combinação entre petróleo, inflação, emprego e decisões dos bancos centrais que deve continuar determinando o comportamento dos mercados nas próximas semanas.