Saúde
25/08/2026
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Adoçantes podem mudar de efeito quando combinados com medicamentos

Estudo com 39 adoçantes encontrou alterações no crescimento de bactérias intestinais e mais de 100 interações com medicamentos e outras substâncias. Resultados foram alcançados em laboratório, fora do corpo humano.

Adoçantes artificiais e de baixa caloria podem interferir diretamente no crescimento de bactérias que vivem no intestino, segundo um estudo realizado em laboratório por pesquisadores da Universidade de Cambridge. Os cientistas testaram 39 adoçantes e encontraram mais de 100 situações em que o efeito dessas substâncias mudou quando elas foram combinadas com medicamentos, cafeína ou aromatizantes.

O resultado que mais chamou a atenção ocorreu com o isosteviol, um composto utilizado em adoçantes, combinado com a duloxetina, um antidepressivo. No experimento, a combinação reduziu fortemente o crescimento de duas espécies de bactérias associadas ao funcionamento do intestino e ao metabolismo. A mistura também diminuiu a diversidade da comunidade de microrganismos analisada pelos pesquisadores.

Isso não significa, porém, que tomar um adoçante junto com duloxetina provoque esse efeito no organismo humano. O experimento foi realizado em laboratório, fora do corpo humano. Os próprios pesquisadores ressaltam que ainda não é possível afirmar que as interações observadas causem problemas de saúde nas pessoas.

O estudo, publicado na revista científica Molecular Systems Biology, investigou 25 espécies de bactérias cultivadas separadamente. Os pesquisadores expuseram essas bactérias a 39 adoçantes de uso comercial, naturais e artificiais, e acompanharam se os microrganismos continuavam crescendo normalmente. As pesquisas foram feitas no laboratório da Universidade de Cambridge e financiadas pelo programa Horizon 2020 da União Europeia e pelo Medical Research Council do Reino Unido. Também publicada no site Science Daily em julho de 2026.

O objetivo da pesquisa é mostrar que os efeitos dos adoçantes podem ser mais complexos do que se imaginava. Em vez de analisar apenas o que cada substância faz isoladamente, os cientistas começam a investigar também como adoçantes, medicamentos, alimentos e bactérias intestinais podem interagir entre si.

Cerca de três quartos dos adoçantes testados alteraram o crescimento de pelo menos uma espécie de bactéria. Em alguns casos, o crescimento foi reduzido ou completamente interrompido. A descoberta chamou a atenção porque os adoçantes são frequentemente tratados como substâncias que simplesmente passam pelo sistema digestivo, sem interagir de maneira relevante com os microrganismos do intestino.

Os pesquisadores decidiram então reproduzir uma situação mais próxima do consumo cotidiano. Afinal, as pessoas normalmente não ingerem um adoçante isoladamente. Ele pode estar presente em uma bebida com cafeína, em um alimento com aromatizantes ou até em um medicamento usado para mascarar o sabor amargo.

Foram testadas combinações dos adoçantes com cafeína, vanilina, outro adoçante artificial e oito medicamentos de uso comum. Em mais de 100 combinações, o efeito do adoçante sobre as bactérias mudou quando outra substância foi acrescentada. Em 34 casos, o efeito combinado foi mais intenso; em 68, foi mais fraco.

Entre os resultados mais relevantes esteve a combinação de isosteviol e duloxetina. No laboratório, os dois compostos reduziram fortemente o crescimento das bactérias Roseburia intestinalis e Parabacteroides merdae. Essas bactérias fazem parte do microbioma intestinal, conjunto de microrganismos que vive no sistema digestivo e participa de processos relacionados à digestão, ao metabolismo e ao funcionamento do sistema imunológico.

Em uma etapa seguinte, os pesquisadores reuniram as 25 espécies em uma comunidade microbiana simplificada, tentando reproduzir melhor a interação entre diferentes bactérias. A combinação de isosteviol e duloxetina novamente alterou o equilíbrio da comunidade e reduziu sua diversidade.

Os cientistas também observaram mudanças em células utilizadas no experimento para representar a interação entre os microrganismos e o organismo humano. Algumas alterações estavam relacionadas à inflamação e às respostas do sistema imunológico. Ainda assim, esses resultados não permitem concluir que os mesmos efeitos ocorram em uma pessoa que consuma esses produtos.

O chamado microbioma intestinal é formado por uma enorme variedade de bactérias e outros microrganismos. Eles ajudam a decompor componentes dos alimentos, produzem substâncias utilizadas pelo organismo e participam da regulação do metabolismo e do sistema imunológico. A composição desse conjunto varia de uma pessoa para outra e pode ser influenciada pela alimentação, pelo uso de medicamentos e por outros fatores.

A pesquisa também ajuda a explicar por que estudar apenas uma substância de cada vez pode não ser suficiente. Um adoçante consumido como parte de um refrigerante, por exemplo, entra em contato com várias outras substâncias. Quando está presente em um medicamento, pode interagir com o princípio ativo e com outros componentes da formulação.

Os pesquisadores, no entanto, fazem uma ressalva importante: o estudo não demonstra que adoçantes sejam prejudiciais à saúde nem que devam ser evitados por causa dessas descobertas. Dentro do organismo, essas substâncias podem ser absorvidas, modificadas, diluídas ou eliminadas antes de entrar em contato com determinadas bactérias.

Também não se sabe se as concentrações utilizadas no laboratório correspondem às quantidades normalmente encontradas no intestino de uma pessoa. Por isso, serão necessários estudos em humanos para verificar se essas interações realmente acontecem no organismo, em quais doses e se provocam alguma consequência mensurável para a saúde.

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