A tensão entre Estados Unidos e Irã voltou a aumentar na semana encerrada em 21 de agosto. O cessar-fogo entre os dois países terminou sem renovação. Em vez de iniciar uma nova ofensiva militar, os Estados Unidos optaram por ampliar a pressão econômica e o isolamento do Irã, prometendo aplicar sanções ainda mais duras.
Para Claudio Ferraz, sócio e economista-chefe da Galapagos Capital, o movimento indica que Washington não parece disposto, neste momento, a partir para uma escalada militar de grandes proporções. Ao mesmo tempo, porém, uma solução definitiva para o conflito fica mais distante.
A tensão já afeta uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo. O tráfego de navios pelo Estreito de Ormuz continua bastante reduzido, enquanto o preço do petróleo Brent, referência internacional, ficou acima de US$ 90 por barril durante a semana.
Alguns fatores ajudaram a evitar um impacto ainda maior, como os estoques de petróleo, os oleodutos que permitem transportar o produto sem passar por Ormuz e a redução das importações chinesas. Ainda assim, o risco continua sendo de pressão para cima sobre o preço do petróleo.
Para a economia, petróleo mais caro é um problema porque pode aumentar os custos de transporte, produção e outros bens e serviços. Isso pode dificultar a queda da inflação e fazer com que os bancos centrais mantenham os juros elevados por mais tempo.
Foi justamente o comportamento dos juros de prazo mais longo que dominou os mercados na semana. Houve uma forte venda de títulos públicos em vários países. Esse movimento, conhecido como sell-off, ocorre quando muitos investidores vendem esses papéis ao mesmo tempo. Com a queda dos preços dos títulos, os juros que eles oferecem aumentam.
Nos Estados Unidos, o rendimento do título do Tesouro com vencimento em 30 anos passou de 5,3%, atingindo o maior nível desde 2007. O movimento também foi observado em França, Alemanha, Reino Unido e Japão, que registraram juros de longo prazo nos maiores níveis de vários anos.
Segundo Ferraz, a alta dos juros não parece estar relacionada, neste momento, a uma perda de controle das expectativas de inflação. O movimento foi mais influenciado pelos chamados juros reais, que mostram o retorno dos títulos descontada a inflação, e pelo prêmio de prazo, uma remuneração adicional que os investidores exigem para emprestar dinheiro ao governo por períodos mais longos.
O problema, portanto, estaria mais ligado às contas públicas. Países desenvolvidos continuam apresentando déficits elevados, enquanto suas dívidas aumentam. Ao mesmo tempo, empresas passaram a emitir volumes recordes de dívida para financiar investimentos em inteligência artificial. Na prática, governos e empresas estão disputando os mesmos recursos disponíveis para investimento no mercado mundial. Essa competição pode contribuir para manter os juros de longo prazo elevados.
Esse cenário ocorre justamente quando a composição dos investidores que compram títulos do Tesouro americano vem mudando. Como resposta à pressão sobre os papéis de longo prazo, o Tesouro dos Estados Unidos anunciou que pretende pelo menos dobrar as recompras desses títulos e poderá aumentar esse volume posteriormente.
Também houve um sinal de que o governo americano pretende melhorar suas contas. A proposta, porém, está concentrada no combate a desperdícios e fraudes e não apresenta, até agora, um cronograma ou metas concretas para reduzir o déficit. Para Ferraz, esse sinal ainda é considerado frágil porque não representa um plano consistente de ajuste das contas públicas.
O cenário ajudou a enfraquecer o dólar, que caiu para o menor nível em três meses, enquanto o ouro renovou sua máxima. A avaliação apresentada na análise é que, sem uma estratégia fiscal mais clara e duradoura para controlar o crescimento da dívida, o dólar pode continuar enfrentando pressão.
Nos Estados Unidos, a ata da reunião de julho do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, divulgada nesta semana, mostrou que vários integrantes já defendiam uma alta dos juros. O documento, porém, foi elaborado antes de dados mais recentes que mostraram um mercado de trabalho mais fraco e uma inflação melhor em junho. Por isso, parte das informações da ata já parece defasada em relação ao cenário atual.
O debate dentro do Federal Reserve ficou evidente nas declarações de Mary Daly e Alberto Musalem. Os dois analisam cenários semelhantes, mas chegam a conclusões diferentes sobre o risco de inflação. Daly considera mais provável que os efeitos das tarifas, do petróleo e dos investimentos em inteligência artificial percam força.
Nesse cenário, a inflação poderia continuar convergindo para níveis mais baixos sem a necessidade de novos aumentos dos juros. Por isso, ela defende a manutenção das taxas atuais. Musalem, por outro lado, considera mais provável uma inflação persistente, entre 2,5% e 3%, e vê espaço para uma alta dos juros. O debate ocorre em um momento em que a atividade econômica continua mostrando resistência em várias partes do mundo.
As prévias dos índices de gerentes de compras, conhecidos pela sigla PMI, de agosto, surpreenderam positivamente, principalmente por causa da indústria. Na zona do euro, o indicador atingiu o maior nível em mais de quatro anos.
O Japão também apresentou uma atividade forte, sustentada principalmente pela demanda relacionada à inteligência artificial e aos gastos com defesa. Nos Estados Unidos, pesquisas sobre a indústria, como o indicador do Federal Reserve da Filadélfia, também estão em níveis elevados para os últimos anos.
Nesse ambiente, os principais bancos centrais das economias desenvolvidas tendem a manter uma postura mais dura contra a inflação. O Banco Central Europeu e o Banco do Japão caminham para manter a possibilidade de novas altas de juros em setembro. No caso do Federal Reserve, a expectativa apresentada por Ferraz é de manutenção dos juros em setembro. Os próximos dados econômicos, no entanto, serão importantes para confirmar ou alterar esse cenário.
No Brasil, o quadro é diferente. A atividade econômica continua perdendo força. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma espécie de prévia do Produto Interno Bruto (PIB), caiu em junho.
O crescimento da economia também desacelerou no segundo trimestre, para apenas 0,2%, depois de uma expansão de 1,2% nos três primeiros meses do ano. O resultado aumenta a possibilidade de uma atividade ainda mais fraca no terceiro trimestre.
A expectativa é de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre 0,4% e 0,5% no segundo trimestre, seguido por uma acomodação maior da economia no terceiro. Na inflação, a previsão é de deflação pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em agosto. Deflação significa uma queda média dos preços no período. Esse movimento, porém, pode não durar.
As forças que ajudaram a reduzir os preços neste mês tendem a perder intensidade, enquanto os preços dos alimentos no atacado, principalmente dos grãos, já começam a subir novamente.
O fenômeno El Niño também aumenta a preocupação com os preços dos alimentos nos próximos meses, diante da possibilidade de impactos sobre a produção agrícola. Por isso, mesmo com uma inflação mais baixa no curto prazo, o cenário pode mudar até o fim do ano.
A próxima semana será importante para os mercados. Nesta quarta-feira (26 de agosto), serão divulgados dados de inflação do Brasil e dos Estados Unidos. Na sexta-feira, a atenção estará voltada para o encontro de Jackson Hole e para o discurso do presidente do Federal Reserve.
Além desses indicadores, será importante acompanhar os efeitos da tensão no Oriente Médio sobre o petróleo e a reação dos juros de longo prazo, que voltaram a ocupar o centro das atenções dos investidores.