Os Estados Unidos podem retomar os ataques contra o Irã logo após as eleições legislativas americanas, marcadas para a próxima terça-feira, aumentando a tensão no Oriente Médio e o risco de uma nova disparada do petróleo. Segundo análise de Claudio Ferraz, sócio e economista-chefe da Galapagos Capital, Washington teria alertado países do Golfo sobre a possibilidade de uma campanha militar curta e intensa. Ao mesmo tempo, há tentativas de negociação envolvendo o vice-presidente americano, J. D. Vance, e mediadores do Catar, mas as posições dos dois países continuam distantes, explica o economista Claudio Ferraz.
Nesse cenário, o petróleo Brent, referência internacional para os preços da commodity, voltou a se aproximar de US$ 120 por barril. O temor é que novos ataques prejudiquem o transporte de petróleo, em um mercado que já enfrenta estoques baixos e fretes caros. Uma alta prolongada da commodity pode encarecer combustíveis, transportes e outros produtos, pressionando a inflação em vários países.
Nos Estados Unidos, os indicadores econômicos mostram que a atividade continua forte, enquanto a inflação permanece resistente. O Produto Interno Bruto (PIB), que mede o valor dos bens e serviços produzidos no país, cresceu 3,4% no terceiro trimestre, em ritmo anualizado. Isso significa que o resultado do trimestre foi convertido em uma taxa equivalente à de um ano, caso o mesmo ritmo fosse mantido.
A demanda privada interna avançou perto de 5%, no maior ritmo desde 2021, impulsionada principalmente pelos investimentos em inteligência artificial, que começam a beneficiar outros setores da economia. Ao mesmo tempo, o núcleo do índice de preços das despesas de consumo pessoal (PCE), indicador acompanhado pelo banco central americano, subiu 3,1% em 12 meses. Os preços dos serviços, excluindo habitação, continuam aumentando perto de 4%, sinal de que a inflação ainda não está controlada.
Diante desse quadro, o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, manteve os juros inalterados na reunião deste mês, como esperavam Ferraz e o mercado. O comunicado destacou a força da atividade econômica e afirmou que novos dados serão importantes para definir os próximos passos, com o objetivo de levar a inflação de volta à meta de 2%.
Na avaliação de Ferraz, porém, o tom adotado pelo presidente do Fed, Warsh, durante a entrevista coletiva foi menos rigoroso com a inflação. Ele afirmou que a economia não parece estar crescendo em ritmo excessivo, disse que as condições financeiras ficaram mais restritivas desde setembro e evitou antecipar o que poderá acontecer na reunião de dezembro.
O Fed também reduziu o número de reuniões com decisões sobre juros previstas para 2027 e 2028. O mercado interpretou a mudança como um possível sinal de que os ajustes futuros serão mais graduais. Na avaliação de Thomas Barkin, presidente do Federal Reserve de Richmond, a direção da política monetária está relativamente clara: a inflação continua elevada, o desemprego está baixo e a demanda permanece sólida.
O ritmo das decisões, no entanto, dependerá dos novos indicadores econômicos e do cenário internacional. Nesse contexto, Ferraz mantém a projeção de um ciclo total de alta de até 1 ponto percentual nos juros, incluindo a elevação de setembro. O mercado, por sua vez, atribui cerca de 70% de probabilidade a uma nova alta em dezembro.
Entre os demais bancos centrais, o Banco Central Europeu manteve os juros e também destacou o efeito das condições financeiras mais restritivas. O Banco do Japão reconheceu, pela primeira vez desde 2013, que a inflação subjacente, que procura identificar a tendência dos preços sem os efeitos mais voláteis, está alinhada à meta. Já o Banco do Canadá elevou os juros pela primeira vez desde 2023, segundo a análise.
No Brasil, o principal acontecimento da semana foi a eleição presidencial. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com 51,8% dos votos válidos, revertendo a vantagem da oposição no primeiro turno. Para Ferraz, o resultado muda as expectativas do mercado sobre a condução da economia.
Um ajuste fiscal mais profundo, que envolveria medidas para melhorar as contas públicas e controlar o crescimento da dívida, deixa de ser o cenário central dos investidores. Agora, a atenção se volta para a escolha da equipe econômica e para os primeiros sinais sobre como o governo pretende administrar receitas, despesas e endividamento.
Os indicadores de atividade econômica mostram uma desaceleração gradual. As concessões de crédito, ou seja, os novos empréstimos liberados por bancos e outras instituições financeiras, caíram cerca de 2% em setembro e também perderam força na comparação com o mesmo mês do ano anterior.
Ao mesmo tempo, a inadimplência atingiu o maior nível da série histórica, assim como o comprometimento da renda e o endividamento das famílias. Esse quadro indica que os brasileiros estão com uma parcela cada vez maior do orçamento comprometida com dívidas, o que pode limitar o consumo e dificultar a retomada da economia.
Na inflação, o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) continua pressionado, influenciado pelo petróleo e por seus derivados. A alta desses produtos pode elevar os custos de produção e transporte, que acabam sendo repassados aos preços de outros bens e serviços. As expectativas de inflação para 2027 também aumentaram na semana.
Ferraz prevê que as projeções possam piorar ainda mais no próximo relatório Focus, divulgado pelo Banco Central, e que novas revisões ocorram nas semanas seguintes. As expectativas são importantes porque influenciam decisões de empresas, trabalhadores e investidores e podem dificultar o trabalho do banco central para controlar os preços.
Nesse ambiente, a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável por definir a taxa básica de juros brasileira, a Selic, será decisiva. O cenário principal de Ferraz é de interrupção do ciclo de cortes, com a manutenção da taxa no encontro de novembro.
Embora a atividade econômica e o crédito estejam perdendo força, a inflação subjacente, que revela melhor a tendência dos preços, voltou a acelerar. Além disso, a inflação geral permanece acima do limite máximo da meta, as expectativas estão distantes do objetivo do Banco Central e as incertezas sobre as contas públicas aumentaram.
Na avaliação do economista, manter os juros estáveis seria uma forma de ganhar tempo diante da piora do cenário e observar os efeitos das decisões anteriores sobre a inflação. Existe, porém, uma possibilidade alternativa: o Copom pode optar por mais um corte de 0,25 ponto percentual.
Essa decisão, contudo, poderia provocar uma piora das expectativas de inflação e uma desvalorização do real caso o mercado entendesse que o Banco Central está flexibilizando a política monetária cedo demais. Juros menores tendem a estimular o crédito e o consumo, mas, quando a inflação está pressionada, cortes antecipados também podem dificultar seu controle.
Para as próximas semanas, Ferraz destaca três fatores que devem orientar as decisões dos investidores. O primeiro é a combinação entre as eleições legislativas americanas e o risco de uma nova ofensiva contra o Irã, que pode elevar o petróleo e pressionar a inflação mundial.
O segundo é a formação da equipe econômica brasileira e as primeiras indicações sobre a política fiscal do novo mandato.
O terceiro é a decisão do Copom sobre a Selic, em um momento de inflação persistente e incertezas sobre as contas públicas. A combinação desses fatores será determinante para as perspectivas de juros, inflação e crescimento econômico no Brasil e no exterior.