Pessoas com até 45 anos, com diabetes tipo 2, alcançam a remissão em apenas seis meses se combinarem uma dieta de baixa caloria com exercícios físicos estruturados. É o que mostra um estudo realizado no Canadá e no Reino Unido, publicado em 1º de outubro de 2026 na revista científica The Lancet Regional Health – Americas. Entre os participantes que seguiram o programa intensivo, 54% atingiram a remissão da doença, contra apenas 4% daqueles que receberam o tratamento habitual. A pesquisa acompanhou apenas 96 pessoas durante seis meses, e ainda é necessário verificar se a remissão e a perda de peso podem ser mantidas por períodos mais longos, fora de um programa de pesquisa supervisionado.
A principal contribuição do estudo é mostrar que, para adultos jovens com diabetes tipo 2, o tratamento pode ir além de controlar a glicose e reduzir determinados alimentos. A combinação de alimentação planejada, perda de peso e exercícios pode favorecer a perda de gordura e melhorar o funcionamento do organismo e aumentar as chances de remissão. Mas, o resultado depende de acompanhamento adequado e ainda precisa ser confirmado em estudos mais longos.
O resultado chama a atenção porque o diabetes tipo 2 diagnosticado em pessoas mais jovens tende a evoluir mais rapidamente e pode provocar complicações mais cedo, aumentando o risco de problemas cardiovasculares, renais e outras consequências ao longo da vida.
O diabetes tipo 2 é uma doença crônica em que o corpo não consegue utilizar adequadamente a insulina, hormônio responsável por permitir que o açúcar presente no sangue entre nas células e seja usado como fonte de energia. Com isso, a glicose se acumula na circulação. O tratamento costuma envolver mudanças na alimentação, atividade física e, quando necessário, medicamentos para controlar a glicemia, ou seja, a quantidade de açúcar no sangue.
Uma das estratégias adotadas por pessoas que tentam controlar o diabetes é reduzir o consumo de carboidratos, presentes em alimentos como pães, massas, arroz, batatas e doces. Essa mudança pode ajudar a diminuir a elevação da glicose após as refeições, mas, isoladamente, não garante que a doença entre em remissão.
Isso acontece porque o problema não se resume à quantidade de açúcar ingerida. O organismo também pode apresentar resistência à ação da insulina, dificultando a entrada da glicose nas células. Por isso, mesmo quando a alimentação reduz a entrada de carboidratos, a alteração metabólica que caracteriza o diabetes pode continuar presente.
A remissão é diferente de uma simples melhora nos exames. Ela ocorre quando a hemoglobina glicada (HbA1c), exame que mostra a média dos níveis de glicose no sangue nos últimos dois a três meses, fica abaixo de 6,5% e permanece nesse patamar por pelo menos três meses sem o uso de medicamentos para reduzir a glicemia. Isso não significa cura definitiva: a doença pode voltar, e o acompanhamento médico continua necessário.
O estudo, chamado RESET for Remission, avaliou se a combinação de uma dieta de baixa caloria com exercícios supervisionados poderia aumentar as chances de remissão em adultos jovens com diabetes tipo 2 e obesidade. Participaram 96 pessoas, com idades entre 18 e 45 anos, que não utilizavam insulina. Elas foram divididas em dois grupos: um recebeu o tratamento habitual, enquanto o outro seguiu um programa intensivo de alimentação e atividade física durante 24 semanas.
Na primeira fase, de 12 semanas, os participantes do programa intensivo consumiram entre 800 e 900 calorias por dia, sob acompanhamento da equipe de pesquisa. Nas duas primeiras semanas, todas as refeições foram substituídas por produtos nutricionais formulados para esse tipo de dieta. Depois, foi permitida a inclusão gradual de alimentos convencionais, com orientações para o consumo de proteínas, frutas e vegetais.
A alimentação foi combinada com exercícios aeróbicos, como atividades que aumentam a frequência cardíaca, e treinamento de resistência, que trabalha a força muscular. As sessões eram supervisionadas duas vezes por semana, com uma atividade adicional realizada pelos próprios participantes. Na segunda metade do estudo, o foco passou a ser a manutenção do peso perdido e a continuidade dos exercícios.
Após seis meses, 27 dos 50 participantes do grupo intensivo haviam alcançado a remissão, o equivalente a 54%. No grupo que recebeu o tratamento habitual, foram apenas dois entre 46 participantes, cerca de 4%. Os pesquisadores também observaram uma perda de peso significativamente maior entre aqueles que seguiram o programa combinado.
Nesse grupo, o peso médio caiu de 100,7 quilos para 92,3 quilos, uma redução de 8,4 quilos. Entre os participantes que receberam os cuidados habituais, a perda média foi de aproximadamente 1,2 quilo.
Um dos pontos importantes da pesquisa foi a inclusão de exercícios de resistência durante a fase de emagrecimento. Quando uma pessoa perde peso rapidamente apenas restringindo a alimentação, pode eliminar não só gordura, mas também massa muscular. Preservar os músculos é importante para a força física, a mobilidade e o funcionamento do metabolismo.
O treinamento de força pode ajudar a reduzir essa perda muscular, enquanto os exercícios aeróbicos contribuem para melhorar o condicionamento cardiovascular. A combinação também pode favorecer a resposta do organismo à insulina, facilitando o controle da glicose.
Os pesquisadores não relataram eventos adversos graves, mas os efeitos colaterais foram mais frequentes entre os participantes submetidos à dieta intensiva. Entre os problemas observados estavam prisão de ventre, dor de cabeça, tontura e cansaço. Na maioria dos casos, os sintomas apareceram nas primeiras semanas e diminuíram com o tempo.
Apesar dos resultados promissores, o estudo ainda não estabelece um protocolo que deva ser aplicado automaticamente a todos os adultos jovens com diabetes tipo 2. O próximo passo é ampliar as pesquisas e avaliar como incorporar programas estruturados de alimentação e exercícios ao atendimento de rotina. Até que existam evidências suficientes para definir como e para quem aplicar a estratégia, a orientação deve ser individualizada, com acompanhamento médico e nutricional.