A escalada das tensões no Oriente Médio, a pressão do petróleo e os novos dados de inflação nos Estados Unidos aumentaram a atenção dos mercados nesta semana. Para Claudio Ferraz, sócio e economista-chefe da Galapagos Capital, o cenário geopolítico voltou a representar um risco importante para os preços do petróleo, enquanto os dados de inflação reforçam a preocupação com os próximos passos dos bancos centrais.
No Oriente Médio, ataques de grupos houthis atingiram instalações de energia no sul da Arábia Saudita. Os Estados Unidos afirmaram ter destruído cinco navios petroleiros iranianos, enquanto o Irã reagiu contra uma base americana na região e reivindicou ataques a embarcações próximas ao Estreito de Ormuz. Ao mesmo tempo, os houthis ampliaram seu controle sobre a costa do Iêmen e avançaram em direção ao Estreito de Bab el-Mandeb, uma rota estratégica para o transporte marítimo de petróleo.
A tensão fez o petróleo Brent, referência internacional para os preços da commodity, se aproximar de US$ 110 por barril, enquanto o diesel atingiu máxima histórica. Na sexta-feira, 11 de setembro, houve alguma acomodação após notícias de que chanceleres da região discutiam um acordo temporário para administrar o tráfego pelo Estreito de Ormuz. Ferraz, porém, pondera que tentativas semelhantes já ocorreram anteriormente sem produzir resultados duradouros, o que mantém o risco de novas altas do petróleo.
Nos Estados Unidos, a atenção se concentrou nos dados que antecedem a decisão do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, marcada para quarta-feira, 16 de setembro. Depois de um resultado forte do mercado de trabalho em agosto, os principais indicadores divulgados na semana foram os de inflação. O Índice de Preços ao Produtor (PPI), que acompanha a variação dos preços no atacado, subiu 0,4% em agosto e acumulou alta de 5,4% em 12 meses, com alguns componentes relevantes para os índices de inflação acompanhados pelo Fed também mostrando pressão.
O principal destaque, segundo Ferraz, foi o Índice de Preços ao Consumidor (CPI), divulgado na sexta-feira. A inflação geral subiu 0,4% no mês, em linha com o esperado pelo mercado. O núcleo do índice, que exclui componentes mais voláteis e é observado de perto para avaliar a tendência da inflação, avançou 0,29%, acima das expectativas. Os serviços subiram 0,3%, um dado importante porque os preços desse segmento costumam responder de forma mais lenta às mudanças na demanda e no mercado de trabalho.
Diante desse cenário, Ferraz avalia que o Federal Reserve deve iniciar um ciclo de alta de juros na próxima reunião. Para ele, além da decisão em si, será importante observar a comunicação do banco central americano e tentar entender qual poderá ser a duração desse novo ciclo. A avaliação ocorre após o discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole, que já havia levado a equipe da Galapagos Capital a considerar a possibilidade de novas altas dos juros nos Estados Unidos.
O mercado de títulos de longo prazo americano também passou por uma semana de estresse. O Tesouro dos Estados Unidos ampliou significativamente a recompra de títulos de prazo mais longo, numa tentativa de conter a alta das taxas desses papéis, mas, segundo Ferraz, a medida não foi suficiente. Para ele, o problema é estrutural e está relacionado, entre outros fatores, ao elevado déficit fiscal americano e ao grande volume de emissões de empresas, que aumenta a disputa por recursos disponíveis no mercado.
Na Europa, o Banco Central Europeu elevou os juros em 0,25 ponto percentual, para 2,5%, na segunda alta do ano. A presidente da instituição, Christine Lagarde, adotou um tom considerado duro e não indicou qual poderá ser o próximo passo. As novas projeções, porém, apontam para inflação de 2% e 3% até 2028. Na avaliação de Ferraz, isso mostra que a inflação ainda não apresenta uma convergência clara para a meta no horizonte considerado e pode abrir espaço para novas altas dos juros. No Japão, o cenário também aponta para a possibilidade de aumento de 0,25 ponto percentual na próxima semana, em meio ao avanço dos salários reais pelo sétimo mês consecutivo.
No Brasil, o principal destaque foi o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de agosto. O índice registrou deflação de 0,32%, ou seja, uma queda média dos preços no mês, resultado abaixo das expectativas do mercado. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses ficou em cerca de 4,2%. Ferraz destaca ainda que a média dos cinco núcleos de inflação, medida em três meses e anualizada, voltou para abaixo de 4%.
Apesar da melhora em parte dos indicadores, os serviços continuam exigindo atenção. Segundo Ferraz, os preços dos serviços, principalmente daqueles que dependem mais diretamente da mão de obra, voltaram a acelerar. O movimento ocorre em um mercado de trabalho ainda aquecido, com salários pressionados, o que pode dificultar uma queda mais rápida da inflação.
Os dados de atividade econômica também mostraram sinais de desaceleração. A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ficou estável em julho e veio abaixo das expectativas. O resultado reforça a percepção de acomodação da economia, movimento que já havia aparecido nos dados da indústria. Ferraz ressalta, porém, que a abertura da pesquisa apresentou um desempenho melhor do que o resultado geral sugere.
Um ponto positivo veio da indústria automobilística. A produção de veículos cresceu 5,2% em agosto, acima do esperado, funcionando como um contraponto pontual ao cenário mais fraco da atividade econômica. Para Ferraz, ainda é cedo para considerar o resultado uma mudança de tendência.
No Brasil, o próximo evento importante será a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável por definir a taxa básica de juros, a Selic. Ferraz espera um novo corte de 0,25 ponto percentual. Mais importante do que a decisão, segundo ele, será a comunicação do Banco Central e, principalmente, se a instituição deixará aberta a possibilidade de continuidade do ciclo de cortes diante da piora das expectativas de inflação.
Para a semana que começa em 14 de setembro, Ferraz aponta três pontos de atenção: a decisão do Fed, em 16 de setembro; a reunião do Copom e a evolução das expectativas de inflação no Brasil; e o comportamento da tensão no Oriente Médio. Uma nova escalada em torno do Estreito de Ormuz ou ataques à infraestrutura de petróleo da Arábia Saudita podem levar a commodity novamente a patamares mais elevados e aumentar a pressão sobre a inflação global.