O seguro pode estar diante de uma mudança importante provocada pelas mudanças climáticas. A proteção tradicional costuma depender da existência de um dano físico para que a empresa tenha direito à indenização. Mas uma onda de calor, por exemplo, pode causar grandes prejuízos mesmo sem destruir um prédio, uma máquina ou outro patrimônio. É o caso da queda de produtividade de funcionários em ambientes muito quentes, da interrupção de ferrovias por deformação dos trilhos e do aumento das despesas com energia para manter sistemas de refrigeração funcionando.
Esse é um dos motivos pelos quais os chamados seguros paramétricos começam a ganhar espaço no debate sobre proteção contra eventos climáticos extremos. Nesse modelo, a indenização não depende de uma vistoria para calcular exatamente quanto a empresa perdeu. O contrato estabelece previamente um parâmetro, chamado de gatilho, que pode ser a temperatura ultrapassar determinado nível, a quantidade de chuva superar uma marca ou a velocidade do vento atingir um limite. Quando esse índice é alcançado, a indenização prevista no contrato é liberada, de acordo com as regras estabelecidas.
A diferença é importante porque permite que o dinheiro chegue mais rapidamente a quem sofreu as consequências de um evento climático. Em vez de esperar uma avaliação dos danos e a conclusão de um processo tradicional de regulação do sinistro, o pagamento pode ser acionado automaticamente quando os dados oficiais confirmam que o gatilho previsto na apólice foi atingido.
A necessidade desse tipo de proteção ficou evidente na Europa durante as recentes ondas de calor. Estimativas divulgadas pela Moody’s apontaram que as ondas de calor no continente no verão passado provocaram cerca de € 43 bilhões em perdas de produção econômica, enquanto as indenizações de seguros ficaram próximas de € 500 milhões. A diferença mostra uma lacuna importante: os prejuízos provocados pelo clima podem ser muito maiores do que aqueles efetivamente protegidos pelas apólices tradicionais.
No Brasil, os seguros paramétricos ainda são pouco conhecidos fora de alguns segmentos específicos, principalmente do agronegócio. A lógica, porém, começa a despertar interesse também entre empresas e governos que precisam lidar com o aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos.
O problema é que o risco climático nem sempre é percebido antes de uma tragédia. Muitas empresas e administrações públicas ainda concentram seus recursos na resposta ao desastre, e não na criação de mecanismos financeiros que permitam agir imediatamente depois de uma ocorrência. Quando uma enchente, uma seca ou uma tempestade provoca grandes perdas, o dinheiro público para reconstrução pode depender de processos burocráticos e demorar a chegar.
Agora, em vez de descobrir somente depois de uma catástrofe de onde virá o dinheiro para reconstruir uma ponte, recuperar uma via ou atender uma população atingida, a prefeitura passa a pagar antecipadamente por uma proteção financeira.
O objetivo não é substituir os seguros tradicionais nem eliminar a necessidade de prevenção. É criar uma proteção adicional para riscos que podem provocar perdas econômicas enormes mesmo quando não existe um dano físico facilmente mensurável.
O cenário climático previsto para o Brasil reforça essa preocupação. Períodos de seca combinados com temperaturas elevadas e baixa umidade podem aumentar o risco de queimadas e incêndios florestais em regiões como o Centro-Oeste e a Amazônia. A falta de chuva também pode pressionar os reservatórios das hidrelétricas, afetar a oferta de energia e elevar os custos de produção das empresas. Em áreas urbanas, eventos extremos podem provocar interrupções no comércio, danos à infraestrutura e aumento da demanda por serviços de saúde.
É nesse contexto que algumas cidades brasileiras começaram a estudar o uso de seguros paramétricos como uma fonte adicional de recursos para enfrentar desastres. Curitiba está entre as cidades que avançaram nessa discussão e firmou um acordo de cooperação técnica com o Governos Locais pela Sustentabilidade (ICLEI), uma rede internacional de cidades voltada ao desenvolvimento sustentável, para estudar mecanismos de seguro destinados à infraestrutura urbana.
A proposta é avaliar como uma apólice poderia ser estruturada para garantir recursos rapidamente depois de eventos como vendavais, chuvas intensas ou alagamentos. A cidade já possui recursos próprios destinados a situações emergenciais, mas um seguro paramétrico poderia funcionar como uma camada adicional de proteção financeira, evitando que todo o custo de uma catástrofe recaia imediatamente sobre o orçamento municipal.
São Paulo também vem estudando mecanismos semelhantes para acelerar a liberação de recursos em situações de enchentes e inundações graves. A ideia é contar com dinheiro disponível rapidamente para ações da Defesa Civil e para a recuperação das regiões atingidas, reduzindo a dependência de processos emergenciais mais demorados.
O movimento não está restrito às duas capitais. Outras cidades e estados brasileiros avaliam soluções financeiras para aumentar a capacidade de resposta a eventos climáticos extremos. A contratação efetiva de seguros paramétricos voltados especificamente para riscos como calor extremo, porém, ainda é um mercado em desenvolvimento no país.
A Superintendência de Seguros Privados (Susep), órgão federal responsável pela regulação e fiscalização do mercado de seguros, também vem criando condições para ampliar o desenvolvimento de seguros sustentáveis e de produtos relacionados a riscos climáticos. Nesse tipo de contrato, a utilização de índices objetivos e dados meteorológicos confiáveis é fundamental para determinar quando a indenização deve ser paga.
Para uma prefeitura, por exemplo, o contrato pode estabelecer que uma determinada quantidade de chuva registrada por uma estação meteorológica oficial acione automaticamente uma indenização. O mesmo princípio pode ser aplicado a temperaturas extremas, períodos prolongados de seca ou ventos acima de determinada velocidade. O ponto central é que o parâmetro precisa ter relação clara com o risco que se pretende proteger.
A adoção em maior escala, no entanto, ainda enfrenta obstáculos. As prefeituras precisam ter orçamento para contratar esse tipo de proteção, dados meteorológicos confiáveis e capacidade técnica para definir os parâmetros do contrato. Também precisam demonstrar que o seguro é uma solução adequada para o risco que desejam transferir ao mercado.
Como se trata de dinheiro público, a contratação precisa seguir as regras da administração pública e passar pelos controles previstos na legislação. O município deve justificar tecnicamente a escolha dos índices, demonstrar que os parâmetros utilizados têm relação com os possíveis prejuízos e comprovar que o preço do seguro é compatível com a proteção contratada. Esse processo envolve diferentes áreas da administração, como finanças, meio ambiente e Defesa Civil, além da análise jurídica e da fiscalização dos órgãos de controle. A estruturação de uma apólice desse tipo pode, portanto, levar meses, especialmente quando é necessário desenvolver estudos históricos para definir os gatilhos climáticos e calcular o risco.
Outro ponto importante é a fonte dos dados. Para evitar disputas sobre o momento em que um gatilho foi atingido, o contrato precisa estabelecer de forma clara quais estações e bases meteorológicas serão utilizadas. Quanto mais objetivos e independentes forem os dados, menor tende a ser a possibilidade de discussão sobre o direito à indenização.
O custo também varia conforme o risco de cada região, o tipo de evento protegido e o valor da indenização contratada. Em referências internacionais, o prêmio anual pode representar uma parcela do valor total da cobertura. Assim, uma cidade que queira garantir uma indenização de R$ 100 milhões para enfrentar os efeitos de um determinado evento climático terá de pagar um prêmio anual calculado de acordo com a probabilidade e a gravidade desse risco. Para os municípios, a lógica é transformar uma despesa imprevisível em um custo conhecido no orçamento.