Saúde
15/09/2026
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Coração humano mostra capacidade de produzir novas células após infarto

Descoberta desafia a ideia de que o músculo cardíaco destruído fica condenado apenas à formação de cicatrizes e pode abrir caminho para futuras terapias de regeneração.

As lesões provocadas por um ataque cardíaco, que até então eram consideradas irreversíveis e capazes de deixar apenas cicatrizes no coração, podem estar com os dias contados com o avanço de uma pesquisa publicada na revista científica Circulation Research. O estudo mostra que células do músculo cardíaco humano aumentam sua capacidade de se dividir após um infarto, indicando que o coração adulto possui um potencial natural de regeneração que, até agora, não havia sido demonstrado em seres humanos.

Durante um infarto, a interrupção do fluxo de sangue reduz o fornecimento de oxigênio e pode destruir até um terço das células musculares do coração. O organismo substitui boa parte desse tecido perdido por uma cicatriz, que não possui a mesma capacidade de contração do músculo cardíaco. Quanto maior a área danificada, maior pode ser o impacto sobre a capacidade do coração de bombear sangue.

Essa perda de função pode contribuir para o desenvolvimento de insuficiência cardíaca, condição em que o coração não consegue bombear sangue de forma adequada para atender às necessidades do organismo. Em casos avançados, quando outros tratamentos deixam de funcionar, o transplante cardíaco pode ser necessário. No entanto, o número de órgãos disponíveis é muito menor que a demanda. Em 2025, foram realizados 427 transplantes de coração no Brasil.

A nova pesquisa muda a compreensão sobre o que acontece no coração depois de um infarto. Os cientistas observaram que os cardiomiócitos, células responsáveis pela contração do músculo cardíaco, aumentam a ocorrência de mitose, processo pelo qual uma célula se divide para formar novas células. Também foram identificados sinais de citocinese, etapa final da divisão celular. O estudo é considerado o primeiro a demonstrar esse fenômeno em corações humanos adultos, algo que já havia sido observado anteriormente em modelos com roedores.

Isso, porém, não significa que o coração consiga se recuperar sozinho depois de um infarto. A capacidade natural de produção de novas células ainda é pequena demais para substituir todo o músculo cardíaco perdido. A importância da descoberta está justamente em mostrar que existe um mecanismo de regeneração que pode, no futuro, ser estimulado por tratamentos desenvolvidos pela medicina.

A pesquisa não representa ainda um novo tratamento para o infarto ou para a insuficiência cardíaca, mas fornece uma evidência importante de que o coração humano adulto tem alguma capacidade natural de produzir novas células musculares depois de uma lesão.

O estudo foi liderado por pesquisadores da Universidade de Sydney, em colaboração com o Royal Prince Alfred Hospital e o Baird Institute, na Austrália. Os cientistas utilizaram uma técnica que permitiu coletar pequenas amostras de tecido cardíaco vivo de pacientes submetidos a cirurgias de revascularização do miocárdio, conhecida popularmente como ponte de safena. O material foi retirado de áreas do coração afetadas e não afetadas pela falta de oxigênio, permitindo comparar o comportamento das células.

A possibilidade de estudar tecido cardíaco humano vivo é um dos aspectos relevantes do trabalho. Até então, grande parte do conhecimento sobre a regeneração do coração após um infarto vinha de estudos com animais. Com as novas amostras, os pesquisadores conseguem observar mais diretamente os mecanismos que ocorrem no coração humano e identificar quais proteínas e processos biológicos estão associados à divisão das células cardíacas.

Segundo os pesquisadores, algumas das proteínas identificadas já haviam sido relacionadas à regeneração do coração em estudos com camundongos. O próximo passo é entender como esses mecanismos funcionam e descobrir se podem ser estimulados com segurança em seres humanos. A expectativa é que esse conhecimento ajude no desenvolvimento de terapias capazes de aumentar a produção de novas células musculares e, no futuro, reduzir os danos provocados por um infarto.

A descoberta pode ser especialmente relevante para pacientes que desenvolvem insuficiência cardíaca após um ataque cardíaco. Atualmente, o transplante é uma alternativa para casos graves que não respondem aos demais tratamentos, mas depende da disponibilidade de órgãos. Segundo o Ministério da Saúde, a sobrevida média aproximada após um ano de um transplante cardíaco é de 70% tanto para o paciente quanto para o órgão transplantado.

As informações sobre a pesquisa foram divulgadas pelo ScienceDaily, a partir de material fornecido pela University of Sydney. O estudo original, intitulado Human Hearts Intrinsically Increase Cardiomyocyte Mitosis After Myocardial Infarction, foi publicado em janeiro de 2026 na revista científica Circulation Research.

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