Economia
06/10/2026
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Petróleo e juros mantêm mercados em alerta

Na coluna Weekly Macro View, o economista-chefe da Galapagos Capital, Claudio Ferraz, analisa os efeitos da tensão no Oriente Médio, os sinais do mercado de trabalho e da inflação nos Estados Unidos e os desafios para os juros no Brasil.

A tensão no Oriente Médio continua influenciando o preço do petróleo e aumentando a incerteza nos mercados. Na semana encerrada em 2 de outubro, o Irã apresentou novas condições para reabrir o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo, mas o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeitou a proposta. Com isso, o petróleo Brent continuou pressionado.

Ao longo da semana, surgiram informações de que o fluxo de petróleo pelo Oriente Médio estava se aproximando novamente dos níveis anteriores à guerra. A notícia chegou a pressionar o preço do petróleo para baixo por um curto período, mas não foi suficiente para mudar o cenário. Segundo Ferraz, a incerteza na região continua elevada e mantém um prêmio de risco geopolítico alto, ou seja, os investidores exigem uma compensação maior diante da possibilidade de novos conflitos.

A tensão aumentou no fim da semana com o anúncio do envio de mais um porta-aviões dos Estados Unidos para a região e da chegada de cerca de 10 mil militares ao Golfo Pérsico. O cenário também foi acompanhado por comentários sobre a possibilidade de uma nova ofensiva norte-americana na região depois das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano, mostrou uma divisão maior entre seus dirigentes sobre os próximos passos dos juros. De um lado, Austan Goolsbee, presidente do Federal Reserve Bank de Chicago, alertou para o risco de ignorar os efeitos dos aumentos de preços provocados por problemas de oferta. Para ele, a inflação está acima da meta há mais de cinco anos, e manter essa postura pode aumentar o risco de que os preços continuem elevados.

De outro lado, John Williams, presidente do Federal Reserve Bank de Nova York, não vê necessidade de uma alta imediata dos juros e sinalizou espaço para apenas mais um aumento em dezembro. O vice-presidente do Fed, Philip Jefferson, também avaliou que a economia norte-americana continua resistente, crescendo perto de seu potencial. Para ele, novas mudanças nos juros devem depender da evolução dos indicadores de inflação e da atividade econômica.

Nesse ambiente, a possibilidade de uma nova alta dos juros em outubro perdeu força. O relatório sobre o mercado de trabalho norte-americano, conhecido como payroll, divulgado em 2 de outubro, reforçou essa percepção. A economia dos Estados Unidos criou apenas 29 mil vagas em setembro, bem abaixo das 90 mil esperadas pelo mercado. Também houve revisões para baixo nos números dos dois meses anteriores.

Para Ferraz, porém, o resultado não indica necessariamente uma piora forte do mercado de trabalho. A alta do desemprego ocorreu principalmente porque mais pessoas passaram a procurar emprego, e não por causa de uma onda de demissões. Os pedidos de seguro-desemprego também permaneceram abaixo de 200 mil pela terceira semana consecutiva, sinal de que as demissões continuam em níveis historicamente baixos.

A economia norte-americana também mostrou força em outros indicadores. A revisão final do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre elevou o crescimento anualizado de 1,5% para 2,2%. O consumo e os investimentos cresceram acima do resultado geral, enquanto a demanda doméstica privada avançou 4,6% em termos anualizados, no ritmo mais forte desde o início de 2023.

A inflação trouxe uma notícia mais positiva. O índice de preços das despesas de consumo pessoal, conhecido pela sigla PCE, ficou abaixo do esperado em agosto. O índice cheio subiu 0,31% no mês, contra uma previsão de 0,4%, enquanto o núcleo, que exclui alguns preços mais voláteis, avançou 0,25%, ante expectativa de 0,3%. Em 12 meses, o núcleo ficou em 3%.

Na avaliação de Ferraz, a economia dos Estados Unidos continua forte, enquanto a inflação ainda está acima da meta. Por isso, o cenário ainda exige cautela com os juros. A expectativa é de um ciclo de ajustes entre 0,75 e 1,25 ponto percentual, mas em um ritmo mais espaçado. Com os dados atuais, a avaliação é de que o Fed deve manter os juros na reunião de outubro e voltar a analisar uma possível mudança em dezembro.

No Brasil, o mercado de trabalho também continua aquecido, com a taxa de desemprego próxima das mínimas históricas. Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) também vieram acima do esperado. Ao mesmo tempo, a inadimplência no crédito continua aumentando e a indústria perdeu força.

A produção industrial caiu 0,6% em agosto e também recuou na comparação com o mesmo mês do ano anterior, ficando abaixo das expectativas. O resultado aumenta o risco de uma atividade econômica mais fraca no terceiro trimestre e pode influenciar a decisão do Banco Central (BC) sobre os juros.

Para Ferraz, esse cenário aumenta a possibilidade de um novo corte da taxa básica de juros, a Selic, na reunião de novembro. Mas a decisão não será simples. A inflação continua elevada, as expectativas para os preços permanecem acima da meta perseguida pelo Banco Central e ainda existem incertezas sobre as contas públicas. Esses fatores podem dificultar a redução dos juros.

Para os próximos dias, Ferraz destaca a atenção do mercado ao resultado do primeiro turno das eleições brasileiras, realizado em 4 de outubro, e aos possíveis efeitos sobre o chamado prêmio de risco do país, que representa quanto os investidores exigem a mais para aplicar dinheiro no Brasil diante das incertezas.

Também estarão no radar os próximos sinais do Federal Reserve sobre os juros nos Estados Unidos e a divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de setembro. A expectativa de Ferraz é de uma inflação próxima de 0,8% no mês, um resultado que poderá influenciar a avaliação do Banco Central sobre os próximos passos da política monetária.

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