A semana encerrada em 14 de agosto foi marcada por avanços e recuos, mas terminou com um saldo negativo, segundo Claudio Ferraz, economista-chefe da Galapagos Capital, na coluna semanal Weekly Macro View. O principal foco de tensão esteve nas negociações sobre o Estreito de Ormuz, passagem estratégica para o transporte de petróleo no Golfo. As conversas começaram a semana sendo classificadas por alguns interlocutores como próximas de um acordo, mas perderam força rapidamente.
Os Estados Unidos rejeitaram as condições apresentadas pelo Irã, que exige o fim do bloqueio naval e o desbloqueio de ativos. Com os dois lados aumentando suas exigências, a possibilidade de um acordo no curto prazo, que já era considerada baixa, ficou ainda menor. Na sexta-feira, 14 de agosto, os Estados Unidos sinalizaram ainda que o bloqueio naval pode ser mantido por tempo indeterminado.
A tensão voltou a pressionar o preço do petróleo, que subiu ao longo da semana. Ao mesmo tempo, surgiram comentários de que o volume de petróleo que está saindo do Golfo pode ser maior do que o indicado pelos dados disponíveis. Para Ferraz, isso aumenta a incerteza do mercado. O preço da commodity passou a refletir não apenas o risco de uma crise geopolítica, mas também dúvidas sobre os próprios dados de oferta. Por isso, o petróleo continua reagindo rapidamente a qualquer nova notícia sobre o conflito.
Nos Estados Unidos, os principais dados da semana foram relacionados à inflação. O índice de preços ao consumidor (CPI) subiu 0,07% em julho, enquanto o núcleo do indicador, que exclui itens mais voláteis, como alimentos e energia, avançou 0,22%. Em 12 meses, o núcleo desacelerou para 2,48%, o menor nível desde 2021.
O índice de preços ao produtor (PPI), divulgado na quinta-feira, 13 de agosto, também apontou uma desaceleração. O indicador ficou estável no mês e, no acumulado em 12 meses, a inflação ao produtor caiu de 5,5% para 4,7%.
Considerados em conjunto, os dados do CPI e do PPI indicam que o núcleo do índice de preços das despesas de consumo pessoal (PCE), um dos indicadores de inflação mais acompanhados pelo Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, deve subir cerca de 0,24% em julho. Para Ferraz, esse ritmo ainda é elevado para que a inflação caminhe rapidamente em direção à meta.
Mesmo assim, a combinação desses números com o resultado mais fraco do mercado de trabalho divulgado na semana anterior reforça a avaliação de que o Fed não deve elevar os juros em setembro. O banco central americano, porém, continua dividido.
Beth Hammack, que discordou da decisão do Fed em julho, voltou a defender pelo menos mais uma alta dos juros. Segundo ela, um único aumento de 0,25 ponto percentual provavelmente teria pouco efeito sobre a economia. Na avaliação da dirigente, os juros ainda não estão suficientemente altos para conter a atividade. As empresas continuam investindo e tomando crédito, enquanto o mercado acionário permanece próximo das máximas. Hammack comparou a estratégia necessária a frear antes de chegar ao sinal de pare, em vez de esperar para fazer uma freada brusca.
Na China, os dados de inflação também vieram abaixo do esperado. A inflação ao consumidor desacelerou para 0,5% em 12 meses, enquanto o núcleo, que exclui os componentes mais voláteis, caiu para 0,9%. Na Austrália, o banco central manteve os juros, mas a discussão entre os dirigentes ficou concentrada na manutenção ou em uma eventual alta, sem considerar cortes. No Japão, a ata da reunião do banco central mostrou integrantes defendendo uma aceleração do processo de normalização da política monetária, ou seja, de retirada gradual dos estímulos à economia.
No Brasil, os indicadores reforçaram a percepção de uma perda de ritmo da atividade econômica. Embora a pesquisa de serviços tenha ficado acima do esperado, a composição do resultado foi fraca. Os serviços prestados às famílias, por exemplo, recuaram mais de 1% no mês.
No varejo, também houve uma surpresa positiva no resultado geral, mas uma queda disseminada entre os segmentos. Para Ferraz, os dados apontam para um crescimento da economia de cerca de 0,4% a 0,5% no segundo trimestre, abaixo da expansão de 1,1% registrada nos primeiros três meses do ano.
A inflação brasileira também desacelerou. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,07% em julho. O resultado, porém, ficou acima da projeção da Galapagos Capital e da estimativa média do mercado, interrompendo uma sequência recente de resultados abaixo das expectativas.
Além do número geral, a composição do índice também preocupou. Os preços dos alimentos caíram menos do que o esperado, enquanto os serviços mais diretamente ligados aos custos com mão de obra continuam apresentando inflação elevada. O alívio recente nos preços dos combustíveis também parece menos sustentável, especialmente diante da retomada das cotações do petróleo.
Diante desse cenário, a Galapagos Capital mantém a projeção de inflação ligeiramente acima de 5% em 2026, com maior pressão no último trimestre do ano.
A ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada na terça-feira, 11 de agosto, detalhou a avaliação do Banco Central sobre uma moderação disseminada da atividade econômica. O documento não trouxe sinais de que o ciclo de redução dos juros esteja perto de uma pausa. Para Ferraz, a comunicação do Copom continua compatível com mais um corte de 0,25 ponto percentual em setembro.
Ao mesmo tempo, o economista avalia que o cenário de inflação reforça a necessidade de uma pausa no ciclo de cortes em um futuro próximo, possivelmente depois da reunião de setembro.
Na próxima semana, o mercado deve acompanhar principalmente o comportamento do petróleo e os efeitos de uma possível nova alta sobre a inflação. Nos Estados Unidos, a atenção estará voltada para a ata do Fed e para os comentários de seus dirigentes, que podem ajudar a mostrar o grau de divisão dentro do banco central. Também estarão no radar as decisões e declarações de outros bancos centrais.
No Brasil, a evolução da inflação, incluindo dados correntes e as expectativas para os próximos meses, será um dos principais focos de atenção. As novas pesquisas de opinião pública para as eleições também devem entrar no radar dos mercados.