Uma injeção semestral contra o colesterol revoluciona a saúde cardíaca ao oferecer uma alternativa de alta tecnologia para proteger o vaso sanguíneo. O medicamento reduz em 26% o risco de eventos graves como o infarto e consegue substituir a necessidade de tomar pílulas todos os dias. Apesar de reunir tantos benefícios clínicos comprovados, o preço elevado ainda representa uma barreira quase intransponível no Brasil. O cenário contrasta com o de outros países, como o Reino Unido, onde há um acordo do governo para subsidiar o remédio na rede pública, ou os Estados Unidos, onde a medicação é coberta pelo seguro governamental para idosos e por grande parte dos planos privados.
Apesar da aprovação regulatória da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) atestar que o produto é seguro e eficaz, a chegada do tratamento aos braços da população brasileira enfrenta gargalos financeiros. A medicação é pouco utilizada no país devido à alta barreira orçamentária do sistema de saúde local. O preço praticado nas redes privadas é impeditivo para a maioria das pessoas, com cada dose custando entre 7,7 mil e 12 mil reais. Como o paciente precisa de duas aplicações por ano, o custo do tratamento ultrapassa a faixa de 15 mil a 20 mil reais anuais, valor inviável para o bolso da imensa maioria da população.
O problema que essa tecnologia busca combater é antigo e perigoso. O acúmulo de gordura no sangue é uma das maiores ameaças à saúde no mundo e a principal causa de mortes no território nacional. Conhecida popularmente como o colesterol ruim, a lipoproteína de baixa densidade (LDL-C) vai se depositando ao longo dos anos nas paredes dos vasos sanguíneos até formar a chamada doença aterosclerótica (DA).
Essas placas de gordura estreitam o caminho da circulação e, se um pedaço se solta ou fecha a artéria, provocam o infarto ou o acidente vascular cerebral (AVC). A dimensão do problema é enorme, pois cerca de 25% das pessoas que sofrem um infarto voltam a ter um novo evento grave no intervalo de apenas dez meses.
Durante décadas, o tratamento padrão para conter essa ameaça consistiu na tomada diária de comprimidos conhecidos como estatinas. No entanto, para uma parcela expressiva das pessoas de altíssimo risco, a pílula diária não é suficiente. Menos de 5% dos pacientes que já infartaram conseguem atingir a meta ideal de redução dessa gordura no sangue apenas com a medicação tradicional. Essa constante exposição aos altos níveis de gordura acelera o desgaste do coração e gera um custo social e econômico que supera bilhões de reais para o sistema de saúde.
Diante dessa limitação, uma inovação biotecnológica surgiu para mudar a medicina. A inclisirana, que é o nome do princípio ativo da substância responsável pelo efeito no organismo, foi desenvolvida para atuar no controle da produção de proteínas do próprio corpo. Aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) no Brasil desde 2023, a substância funciona bloqueando a ação do ácido ribonucleico (RNA) mensageiro responsável por fabricar uma proteína chamada PCSK9. Sem a atuação dessa proteína, o próprio fígado passa a captar e eliminar muito mais gordura da corrente sanguínea de maneira contínua, permitindo trocar a rotina de pílulas diárias por apenas duas aplicações ao ano.
Os resultados científicos que respaldam a nova tecnologia demonstraram uma eficiência inédita nos estudos clínicos do programa internacional ORION. Em pacientes que já haviam sofrido infarto e mantinham níveis perigosos de gordura mesmo usando a dose máxima de pílulas tradicionais, a “inclisirana” alcançou uma queda sustentada de 54,4% nos níveis da lipoproteína de baixa densidade. Além de ajustar os exames laboratoriais, a terapia reduziu em mais de um quarto os novos casos de complicações cardíacas graves. Outro ponto forte é que, por exigir apenas duas aplicações anuais após a fase inicial, mais de 80% dos pacientes mantêm o tratamento em dia, superando a desistência frequente observada nos remédios tomados diariamente.
Sem a inclusão da tecnologia na tabela do Sistema Único de Saúde (SUS) e fora da cobertura obrigatória da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para os convênios privados, a inovação permanece restrita a poucos pacientes no Brasil. A situação é diferente em nações com sistemas integrados de incorporação de tecnologias.
No Reino Unido, o Serviço Nacional de Saúde (NHS) firmou um acordo pioneiro para subsidiar a compra da medicação, disponibilizando a aplicação em postos de saúde e farmácias comunitárias.
Nos Estados Unidos, além da cobertura pelo seguro público para idosos e pelos planos de saúde privados, programas de auxílio ao paciente criados pela indústria farmacêutica chegam a zerar os custos desembolsados pelo consumidor final. Nos países da União Europeia, negociações estatais diretas absorvem o impacto financeiro imediato com a justificativa de economizar no futuro com a redução de internações e cirurgias cardíacas.