Economia
12/05/2026
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Petróleo caro mantém inflação e juros em alerta no Brasil e no mundo

Com tensão no Oriente Médio, petróleo acima de 100 dólares e novos sinais sobre inflação nos Estados Unidos e no Brasil, economista Claudio Ferraz explica por que os próximos dias serão decisivos para os mercados.

A economia global segue em estado de atenção, e o principal foco continua sendo o agravamento das tensões no Oriente Médio. Segundo a análise Weekly Macro View, produzida por Claudio Ferraz, sócio e economista-chefe da Galapagos Capital, o Estreito de Ormuz permanece praticamente fechado há mais de uma semana, enquanto o bloqueio naval norte-americano continua em vigor.

Apesar de episódios pontuais de conflito ao longo dos últimos dias, ainda não houve uma nova escalada militar de grandes proporções. No entanto, a situação permanece delicada. No último fim de semana, o Irã respondeu oficialmente a uma nova proposta dos Estados Unidos, mas o presidente Donald Trump rejeitou a resposta, classificando-a como “totalmente inaceitável”, sem detalhar quais serão os próximos passos.

Para Claudio Ferraz, o cenário atual não pode se sustentar por muito tempo. “Estamos há várias semanas com o Estreito de Ormuz fechado e paralisado, mas sem que nenhum dos lados sinalize com clareza qual será a saída. Algo precisará ceder”, afirma.

Essa incerteza mantém forte pressão sobre o petróleo tipo Brent, que segue sendo negociado frequentemente acima de 100 dólares por barril. O impacto disso vai além do setor de energia, já que o petróleo mais caro pressiona a inflação no mundo todo e aumenta a cautela dos bancos centrais.

Nos Estados Unidos, o principal destaque da última semana foi o mercado de trabalho. O payroll de abril, principal indicador de geração de empregos no país, surpreendeu positivamente ao mostrar a criação de 115 mil vagas, acima do esperado pelo mercado. No setor privado, foram 123 mil novos postos de trabalho.

Mas, segundo Ferraz, o dado mais importante veio dos salários, que subiram menos do que o previsto. A desaceleração anual foi relevante e indica uma redução das pressões salariais. “Mesmo com o choque de energia, o mercado de trabalho americano segue resiliente, mas sem reacelerar a inflação. Isso é um sinal positivo”, explica.

Esse movimento é acompanhado de perto pelo Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, que tenta evitar que a inflação volte a ganhar força. Durante a semana, dirigentes do Fed mostraram visões diferentes sobre o cenário.

Mary Daly, presidente do Fed de São Francisco, adotou um discurso mais suave e avaliou que o atual aumento dos preços de energia parece mais temporário do que um processo inflacionário duradouro. Ela também destacou que as expectativas de inflação de longo prazo seguem controladas.

Já Neel Kashkari, do Fed de Minneapolis, foi mais duro. Segundo ele, o Fed não pode permitir que uma inflação próxima de 3% vire o “novo normal” e, se necessário, uma nova alta de juros pode voltar à mesa.

“O Fed segue dividido, e os próximos dados de inflação serão fundamentais para entender qual caminho será tomado”, explica Ferraz.

No Brasil, o principal destaque foi a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) e a divulgação da ata da reunião na última terça-feira. O documento trouxe um tom um pouco mais brando, reconhecendo a piora das expectativas de inflação para prazos mais longos, especialmente para 2028.

Mesmo assim, na avaliação da Galapagos Capital, o Banco Central ainda demonstra uma postura considerada suave diante dos riscos atuais. O próprio documento reconhece inflação mais alta que o esperado, atividade econômica mais forte no primeiro trimestre e choques externos ainda sem solução.

“Embora o balanço de riscos formal continue sendo chamado de simétrico, na prática ele já está claramente mais inclinado para cima, ou seja, com maior risco de inflação”, avalia Ferraz.

Os dados da economia brasileira reforçam esse cenário. A produção industrial de março veio acima das expectativas e o primeiro trimestre fechou com alta de 1,4%, indicando uma retomada mais consistente da indústria no início do ano.

Agora, o mercado volta suas atenções para três frentes principais: a evolução do conflito geopolítico envolvendo Irã, Estados Unidos e China; os novos indicadores de inflação e atividade nos Estados Unidos, especialmente o Índice de Preços ao Consumidor (CPI); e, no Brasil, a divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de abril, além de outros dados sobre atividade econômica.

Segundo Ferraz, o momento exige cautela. “O cenário ainda é de muita incerteza. Petróleo alto, inflação pressionada e bancos centrais atentos formam uma combinação que exige monitoramento constante”, disse.

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