Os acontecimentos da semana, encerrada na sexta-feira (12 de junho), passaram a servir de base para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, marcada para quarta-feira, 17 de junho. Segundo análise do economista-chefe da Galapagos Capital, Claudio Ferraz, o mercado passou a considerar de forma mais clara a possibilidade de interrupção do ciclo de alta de juros no Brasil diante da combinação de inflação elevada, economia ainda aquecida e aumento das incertezas externas.
A semana foi marcada pelo agravamento das tensões no Oriente Médio. Os Estados Unidos realizaram novos ataques contra o Irã após a derrubada de um helicóptero americano próximo ao Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo. Em resposta, o Irã atacou bases militares americanas no Kuwait, Bahrein e Jordânia. Ao longo dos últimos dias, o presidente americano Donald Trump alternou declarações duras e sinais de possível acordo diplomático, aumentando ainda mais a volatilidade dos mercados.
Ainda na quinta-feira (11 de junho), Trump chegou a ameaçar tomar a infraestrutura energética iraniana. Horas depois, afirmou que havia avançado em um acordo que poderia ser assinado neste fim de semana, incluindo a reabertura imediata do Estreito de Ormuz. A reação dos mercados foi intensa, principalmente nos preços do petróleo e da energia. Apesar do alívio momentâneo, Claudio Ferraz alerta que ainda há cautela, já que os detalhes finais dependem da aprovação de Teerã e negociações anteriores já fracassaram recentemente.
Nos Estados Unidos, o principal destaque econômico da semana foi a inflação de maio. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) cheio acelerou para 4,2% em 12 meses, atingindo o maior nível em mais de três anos. O núcleo da inflação, que exclui itens mais voláteis como alimentos e energia, veio um pouco abaixo do esperado no resultado mensal, mas ainda mostrou pressão elevada no acumulado do ano.
Além disso, o Índice de Preços ao Produtor (PPI, na sigla em inglês), que mede a inflação no atacado, voltou a subir acima das expectativas. Segundo Ferraz, os componentes que alimentam o Índice de Gastos com Consumo Pessoal (PCE, na sigla em inglês), indicador preferido do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, também vieram pressionados. O cenário reforça a percepção de que o Fed deve manter os juros elevados por mais tempo e ainda não descarta novas altas.
Outro fator que sustenta essa visão é a força do mercado de trabalho americano. O relatório oficial de empregos, conhecido como payroll, divulgado na semana passada, mostrou que a economia dos Estados Unidos segue resistente, mesmo com juros altos. Isso reduz a urgência de cortes de juros no país.
Na Europa, o Banco Central Europeu (ECB, na sigla em inglês) elevou os juros em 0,25 ponto percentual, levando a taxa para 2,25% ao ano. Foi a primeira alta desde 2023. A decisão ocorreu após a inflação europeia atingir 3,2%, mesmo em meio à desaceleração da atividade econômica. A presidente do banco, Christine Lagarde, sinalizou que novas altas ainda podem acontecer, dependendo principalmente da evolução do conflito no Oriente Médio e dos preços da energia.
A pressão inflacionária também aparece na Ásia. China e Japão registraram aceleração da inflação ao produtor, mostrando que o choque global de energia continua espalhando custos pelo mundo. Além disso, o fenômeno climático El Niño foi oficialmente confirmado no Oceano Pacífico, aumentando o risco de alta nos preços dos alimentos nos próximos meses.
No Brasil, os indicadores mais recentes reforçaram a percepção de que a economia segue aquecida. A Pesquisa Mensal de Serviços mostrou crescimento de 1,2% em abril, acima das expectativas do mercado. O avanço foi puxado principalmente pelos serviços prestados às famílias, sinalizando consumo ainda forte.
Já o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, subiu 0,58% em maio, também acima das projeções. Os alimentos voltaram a pressionar os preços, mas o ponto que mais chamou atenção foi a continuidade da inflação elevada em serviços e produtos industriais.
Com isso, a inflação acumulada em 12 meses subiu para 4,7%, acima do teto da meta definida pelo Banco Central. Segundo Claudio Ferraz, o indicador deve ultrapassar 5% nos próximos meses. O Boletim Focus, relatório semanal que reúne projeções do mercado financeiro, também segue piorando. A mediana das estimativas para a inflação de 2026 já subiu para 5,11%.
Diante desse cenário, Ferraz afirma que o Banco Central deve considerar a interrupção do ciclo de alta de juros já na próxima reunião do Copom. Para o economista, a combinação de atividade econômica resiliente, inflação persistente, expectativas deterioradas e cenário externo ainda instável exige cautela da autoridade monetária.
O mercado agora concentra as atenções na decisão da próxima quarta-feira, 17 de junho. Além da definição sobre os juros, investidores acompanharão principalmente o tom do comunicado do Copom, que deve indicar os próximos passos da política monetária brasileira ao longo do segundo semestre.
No cenário internacional, a expectativa também se volta para a primeira reunião do Federal Reserve. O mercado aguarda possíveis mudanças na comunicação do banco central americano em meio ao aumento das tensões geopolíticas e da inflação global.