Estudo publicado em março de 2026 na revista científica internacional Mental Health and Physical Activity acendeu um novo alerta sobre a saúde mental dos adolescentes brasileiros. A pesquisa mostrou que o excesso de tempo em frente às telas, combinado com baixos níveis de atividade física, está associado ao aumento dos chamados transtornos mentais comuns, grupo que inclui sintomas frequentes de ansiedade, tristeza persistente, irritação, insônia, dificuldade de concentração e sofrimento emocional.
O trabalho analisou dados de 65.048 adolescentes brasileiros com média de idade de 14,7 anos e utilizou informações do Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes (ERICA), uma das maiores pesquisas já realizadas no país sobre saúde juvenil. O estudo científico recebeu o título “Independent and joint associations of physical activity and screen time with common mental disorders in Brazilian adolescents” e pode ser consultado no site da revista Mental Health and Physical Activity, da editora Elsevier.
Os pesquisadores avaliaram o tempo diário dedicado à atividade física e também o número de horas passadas diante de celulares, computadores, televisores e videogames. Os resultados mostraram que adolescentes com tempo excessivo de tela — acima de seis horas por dia — apresentaram maior prevalência de transtornos mentais comuns tanto entre meninas quanto entre meninos.
Entre as meninas, o risco de sofrimento emocional foi 61% maior nos casos de uso excessivo de telas. Entre os meninos, o aumento chegou a 40%. A situação se agravou quando o excesso de tela foi combinado com sedentarismo. Segundo a pesquisa, a associação entre pouca atividade física e muito tempo conectado elevou a prevalência de transtornos mentais em 46% nas meninas e em 72% nos meninos.
Os pesquisadores destacam que a prática de atividade física mostrou efeito protetor para a saúde mental, embora os resultados tenham variado entre os sexos. Mesmo níveis moderados de exercício já apresentaram benefícios emocionais importantes, principalmente na redução dos sintomas associados ao estresse e à ansiedade.
O estudo reforça uma preocupação crescente entre especialistas em saúde mental no mundo inteiro: o impacto do ambiente digital sobre o bem-estar emocional dos adolescentes. O avanço do uso de smartphones, redes sociais e plataformas de vídeo aumentou significativamente o tempo sedentário entre os jovens nos últimos anos, principalmente após a pandemia de Covid-19.
Os autores alertam, porém, que a pesquisa identifica associação entre os fatores, mas não comprova relação direta de causa e efeito. Ainda assim, os resultados fortalecem a defesa de estratégias de prevenção voltadas ao incentivo da atividade física, redução do sedentarismo e promoção de hábitos digitais mais equilibrados entre adolescentes.
Uma pesquisa internacional publicada em 2024 na revista científica International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity mostrou que adolescentes passam, em média, entre 8 e 10 horas por dia em atividades sedentárias, principalmente diante de telas. A pesquisa mostra associação entre uso intenso de redes sociais e maior tempo sedentário.
No Brasil, os números também preocupam por indicarem que a maioria dos adolescentes brasileiros não alcança o mínimo diário recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo dados atualizados pela OMS, em 2024, cerca de 80% dos adolescentes no mundo não atingem o nível mínimo recomendado de atividade física. A OMS recomenda pelo menos 60 minutos diários de exercícios moderados a intensos para crianças e adolescentes.