Pesquisas divulgadas por universidades internacionais no primeiro semestre de 2026 colocaram as fraudes com inteligência artificial (IA) entre as principais preocupações do mercado global de seguros. Os estudos alertam para o aumento do uso de imagens, vídeos e áudios manipulados digitalmente em pedidos de indenização, principalmente no seguro de automóveis, onde fotos e vistorias online passaram a ser alvo frequente de adulterações feitas com tecnologias cada vez mais sofisticadas.
As fraudes mais comuns ainda envolvem o reaproveitamento de fotos antigas de colisões reais. Criminosos utilizam essas imagens para abrir novos pedidos de indenização, muitas vezes com pequenas alterações digitais para dificultar a identificação da fraude. Mas o cenário ficou mais sofisticado nos últimos meses com o avanço da chamada IA generativa, tecnologia capaz de criar danos inexistentes, alterar placas, apagar avarias e produzir vídeos falsos extremamente realistas.
O crescimento dos chamados “deepfakes” — conteúdos falsos criados por inteligência artificial — já levou seguradoras ao redor do mundo a reforçarem sistemas de segurança e validação de imagens. Casos recentes identificados pelo setor envolveram até vistorias automotivas fraudulentas feitas com arquivos manipulados digitalmente, incluindo alterações de localização, horário e autenticidade das imagens enviadas às empresas.
Diante desse novo cenário, a consultoria Capgemini divulgou o “Relatório Global de Seguros de Propriedade e Acidentes 2026”, mostrando como as seguradoras tentam transformar a inteligência artificial em uma ferramenta de proteção e eficiência. O estudo alerta que o maior desafio não é apenas tecnológico, mas também operacional: integrar a IA aos processos internos sem criar falhas de controle, conflitos entre departamentos e riscos relacionados à segurança dos dados dos clientes.
O relatório cita situações em que sistemas automatizados aprovam reparos fraudulentos após analisarem imagens manipuladas. Nesses casos, surgem disputas internas sobre quem é responsável pelo erro. Equipes de tecnologia da informação responsabilizam áreas de negócios pelas regras utilizadas no sistema, enquanto departamentos jurídicos e de compliance questionam o uso inadequado de dados e falhas de supervisão.
Segundo a Capgemini, o uso eficiente da inteligência artificial nas seguradoras depende de liderança estratégica, integração entre equipes e criação de modelos de trabalho que combinem tecnologia avançada com análise humana especializada.
Os números mostram a velocidade da transformação. Dados da plataforma Autoinsp apontam que 98% das seguradoras no mundo já registram aumento nas manipulações digitais usadas em fraudes. O uso de vídeos falsos subiu de 33% em 2024 para 46% em 2025. Já os áudios adulterados passaram de 25% para 52% no mesmo período.
Em março de 2026, estudo publicado no Journal of Risk and Insurance, conduzido pela IPAG Business School, da França, concluiu que os sistemas tradicionais de combate a fraudes já têm dificuldade para acompanhar a velocidade e a sofisticação dos golpes digitais no seguro de automóveis. A pesquisa aponta que imagens manipuladas por IA e padrões fraudulentos cada vez mais complexos desafiam os métodos atuais de verificação usados pelas seguradoras.
Outro levantamento recente, de janeiro de 2026, publicado pela revista científica Frontiers in Artificial Intelligence, mostrou que seguradoras enfrentam dificuldades para compartilhar dados e identificar fraudes em larga escala devido às regras de privacidade digital. Os pesquisadores defendem o uso de modelos cooperativos de inteligência artificial para ampliar a capacidade de detecção dos golpes sem comprometer a proteção das informações dos clientes.
Especialistas alertam que as imagens continuam sendo o principal foco das tentativas de fraude, mas os vídeos adulterados avançam rapidamente e representam um novo desafio para o setor. Para enfrentar esse crescimento, seguradoras brasileiras começaram a investir em sistemas capazes de analisar mais de 400 imagens por minuto, identificando padrões invisíveis para uma análise humana tradicional.
Algumas seguradoras já passaram a adotar medidas extras de segurança, como bloqueio do envio de fotos antigas, exigência de imagens registradas em tempo real e realização de vistorias ao vivo, acompanhadas por analistas especializados. O objetivo é impedir que conteúdos manipulados por inteligência artificial resultem em pagamentos indevidos e aumentem os prejuízos do setor.
Importante ressaltar que o uso de imagens ou vídeos manipulados em pedidos de indenização pode trazer consequências graves aos clientes. Além da perda do direito ao pagamento do seguro, o responsável pode ser obrigado a devolver valores recebidos e responder judicialmente, inclusive na esfera criminal, dependendo da gravidade da fraude, explica por nota o escritório de advocacia consultado.