O conflito no Oriente Médio continua mantendo os mercados financeiros em alerta, enquanto sinais de uma economia ainda forte nos Estados Unidos aumentam a preocupação com a inflação e com a possibilidade de novos aumentos de juros. Na coluna Weekly Macro View, o sócio e economista-chefe da Galapagos Capital, Claudio Ferraz, avalia que o cenário internacional permanece marcado por um elevado nível de incerteza, com petróleo pressionado e juros de longo prazo em alta.
Segundo Ferraz, a possibilidade de uma solução diplomática para o conflito no Oriente Médio perdeu força ao longo da semana. O Irã sinalizou que poderia reabrir o Estreito de Ormuz caso os Estados Unidos suspendessem o bloqueio militar na região, enquanto o presidente Donald Trump se mostrou aberto a um encontro com o presidente iraniano durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Na quinta-feira (24), porém, as conversas perderam força e a retórica entre os dois países voltou a se intensificar.
Para Ferraz, sem uma trajetória clara de redução das tensões, o petróleo devolveu parte do alívio observado anteriormente e continua pressionado. A preocupação não está apenas no preço do petróleo, mas também nos derivados, já que ainda não há uma sinalização definitiva de normalização da oferta na região. O cenário é agravado pelos danos provocados pela guerra entre Rússia e Ucrânia sobre instalações de refino.
Enquanto o petróleo continua sendo uma fonte de preocupação, o foco dos mercados passou também para as decisões dos bancos centrais das principais economias e para a alta dos juros de longo prazo. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed), banco central americano, elevou a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual na semana passada, para uma faixa entre 3,75% e 4%. O comunicado do Fed destacou que a inflação continua elevada, enquanto a atividade econômica segue crescendo em ritmo sólido.
Na avaliação de Ferraz, os comentários feitos por dirigentes do Fed depois da decisão reforçaram a preocupação com a inflação. Neel Kashkari, Austan Goolsbee, Alberto Musalem, Beth Hammack e Anna Paulson estiveram entre os dirigentes que se manifestaram ao longo da semana. Paulson, presidente do Federal Reserve da Filadélfia, afirmou na quinta-feira (24) que novos aumentos de juros podem ser necessários para levar a inflação de volta à meta de 2% nos Estados Unidos.
Musalem também chamou atenção para o comportamento da inflação subjacente, que exclui alguns preços mais voláteis e ajuda a mostrar a tendência dos preços. Para Ferraz, a mensagem que vem dos dirigentes do Fed é que tarifas, petróleo e os grandes investimentos em infraestrutura de inteligência artificial já não podem ser tratados simplesmente como efeitos passageiros sobre a inflação.
Esse cenário aumenta a possibilidade de novos aumentos de juros nos Estados Unidos. Ferraz afirma que, diante desse quadro, passou a trabalhar com um ciclo de aperto monetário entre 75 e 125 pontos-base, acima da faixa anterior, de 50 a 100 pontos-base. Um ponto-base corresponde a 0,01 ponto percentual. Na prática, isso significa que os juros americanos podem permanecer elevados por mais tempo caso a inflação continue resistente.
Os dados de atividade econômica divulgados nesta semana reforçaram essa preocupação. A prévia de setembro do Índice de Gerentes de Compras (PMI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos subiu para 58,4 pontos, ante 56 em agosto, atingindo o maior nível em mais de cinco anos. O indicador reúne informações dos setores de indústria e serviços e, quando fica acima de 50 pontos, sinaliza expansão da atividade.
Para Ferraz, a força da economia americana também levou a uma revisão de sua projeção para o crescimento do terceiro trimestre, agora estimado em uma faixa de 3% a 4% em termos anualizados. A avaliação é que uma economia crescendo em ritmo forte pode dificultar a queda da inflação e, consequentemente, limitar o espaço para cortes de juros.
Na Europa, o cenário apresenta sinais semelhantes. O PMI composto da zona do euro subiu de 52,0 pontos em agosto para 53,1 em setembro, indicando aceleração da atividade econômica. O resultado ficou acima das expectativas e atingiu o maior nível em 41 meses.
Segundo Ferraz, dirigentes do Banco Central Europeu (BCE) também passaram a admitir a possibilidade de novos aumentos de juros. Na Noruega, a taxa foi elevada para 4,5%, enquanto a Suécia manteve os juros, mas já há sinalização de possível início de um ciclo de alta ainda neste ano. Para o economista, o movimento mostra que várias economias desenvolvidas estão reagindo à persistência das pressões inflacionárias com juros mais altos.
No Brasil, Ferraz avalia que a mensagem do Comitê de Política Monetária (Copom), após o corte de juros realizado na semana passada, continua indicando espaço para uma nova redução em novembro. O Banco Central reduziu a taxa Selic para 13,75% nas reuniões de agosto e setembro, com cortes de 0,25 ponto percentual em cada encontro.
O Relatório de Política Monetária divulgado pelo Banco Central em 24 de setembro também mostrou uma desaceleração esperada para a economia brasileira. A projeção oficial para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) caiu para 1,8% em 2026 e 1,4% em 2027. O documento aponta que a atividade deve continuar perdendo força depois de crescer 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025.
Ao mesmo tempo, a inflação continua sendo um problema. O Banco Central informou que a inflação acumulada em 12 meses havia recuado para 4,2% em agosto, mas avaliou que os preços devem voltar a subir nos próximos meses. No cenário do próprio Banco Central, a projeção de inflação no horizonte relevante, no primeiro trimestre de 2028, está em 3,2%, ainda próxima da meta de 3%.
O resultado mais recente do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), considerado uma prévia da inflação oficial, reforçou a preocupação. O índice subiu 0,7% em setembro, depois de ter registrado deflação em agosto. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses chegou a 4,47%, segundo dados divulgados nesta sexta-feira (25).
Para Ferraz, o resultado veio acima de sua projeção e da expectativa média do mercado e apresentou uma composição desfavorável, com pressão maior em medidas que procuram identificar tendências mais persistentes da inflação, especialmente nos serviços. Na avaliação do economista, o dado reforça a possibilidade de uma inflação mais alta em 2026 e de novas revisões para cima das projeções para 2027.
O cenário, portanto, continua desafiador para o Banco Central. De um lado, a economia brasileira começa a mostrar sinais mais claros de desaceleração, o que pode abrir espaço para juros menores. De outro, a inflação continua pressionada, enquanto o cenário internacional apresenta petróleo mais caro e juros elevados nas principais economias.
Olhando para as próximas semanas, Ferraz destaca a importância dos novos dados de inflação dos Estados Unidos, que poderão influenciar a percepção do mercado sobre o ritmo e a intensidade do ciclo de juros do Fed. No Brasil, a atenção estará voltada para a comunicação do Banco Central depois do resultado do IPCA-15 e para os próximos indicadores de inflação e atividade econômica.
Na avaliação de Ferraz, as pesquisas de opinião na reta final antes do primeiro turno das eleições também entram no radar dos mercados. A combinação entre inflação, juros, petróleo, atividade econômica e incertezas externas deverá continuar sendo acompanhada de perto pelos investidores.