Economia
14/04/2026
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Guerra, inflação e juros aumentam incerteza e mudam expectativas no mundo e no Brasil

Economista-chefe da Galapagos Capital, Claudio Ferraz, analisa tensão no Oriente Médio, alta de preços e sinais mais duros dos bancos centrais, contribuindo para um cenário econômico imprevisível.

A semana encerrada em 13 de abril de 2026 foi marcada por forte instabilidade nos mercados globais, impulsionada principalmente por novos desdobramentos no conflito no Oriente Médio e por dados econômicos que aumentaram as dúvidas sobre o rumo dos juros, segundo análise do economista-chefe da Galapagos Capital, Claudio Ferraz, na coluna Weekly Macro View, divulgada pela Gente Seguradora.

O período começou com um alívio momentâneo. O anúncio de um cessar-fogo de 14 dias entre Estados Unidos e Irã, mediado pelo Paquistão, trouxe otimismo aos mercados. O preço do petróleo caiu mais de 14% em um único dia, as bolsas de valores subiram e o real se valorizou frente ao dólar.

No entanto, o cessar-fogo durou pouco. Ataques envolvendo Israel, o Líbano e o Irã colocaram em dúvida o acordo, e as negociações terminaram sem consenso. Ao fim da semana, os Estados Unidos anunciaram um bloqueio naval no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte global de petróleo. Com isso, o conflito segue em aberto, aumentando a incerteza e mantendo os mercados sensíveis a qualquer nova escalada.

No campo econômico, os dados dos Estados Unidos trouxeram sinais mistos. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) subiu 0,9% em março, pressionado pela alta da energia. Por outro lado, o núcleo da inflação, que exclui itens mais voláteis, avançou apenas 0,2%, indicando que a pressão ainda não se espalhou de forma mais ampla pela economia.

Segundo Claudio Ferraz, esse dado ainda permite alguma cautela por parte do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos). No entanto, a ata do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) trouxe um tom mais preocupado, indicando que a inflação pode demorar mais para convergir à meta e que há riscos tanto de manutenção quanto de alta dos juros.

Declarações recentes de dirigentes do Fed reforçam essa leitura. A sinalização agora é de que o cenário deixou de ser apenas sobre quando os juros vão cair, passando a incluir também a possibilidade de aumento, dependendo da evolução da inflação.

No Brasil, a semana também trouxe surpresas relevantes. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março subiu quase 0,9%, acima das expectativas do mercado, puxado principalmente pela alta da gasolina e dos alimentos. O resultado levou a inflação anual a ultrapassar novamente o nível de 4%.

Além disso, medidas que acompanham a tendência dos preços, conhecidas como núcleos de inflação, também aceleraram, o que indica uma pressão mais persistente. As expectativas para os próximos anos pioraram, com a projeção de inflação para 2028 subindo para 3,6%, sinalizando maior desconfiança do mercado em relação ao controle dos preços.

Autoridades do Banco Central reforçaram esse alerta ao longo da semana. O diretor Nilton David destacou que a alta das expectativas de inflação sugere dúvidas sobre a capacidade de conter efeitos secundários da inflação, enquanto o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, adotou um discurso mais cauteloso, indicando menor tolerância a choques de preços.

Na avaliação de Claudio Ferraz, o Banco Central brasileiro ainda pode seguir com sua estratégia gradual de política monetária, mas o espaço para uma visão mais otimista diminuiu, especialmente diante da piora das expectativas de inflação.

Para os próximos dias, o cenário segue desafiador. A evolução do conflito no Oriente Médio, especialmente após o bloqueio no Estreito de Ormuz, será determinante para o comportamento dos mercados. Ao mesmo tempo, investidores devem acompanhar com atenção as próximas sinalizações dos bancos centrais.

No Brasil, a divulgação de indicadores de atividade econômica pode trazer sinais positivos, mas o mercado ainda precisará avaliar os impactos da inflação mais alta nas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável por definir a taxa básica de juros do País.

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