Economia
11/08/2026
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Economia global enfrenta novas incertezas com inflação e juros no radar

Na coluna Weekly Macro View, o economista-chefe da Galapagos Capital, Claudio Ferraz, analisa os sinais de desaceleração no conflito com o Irã, a resistência da economia americana e os próximos passos dos juros no Brasil e nos Estados Unidos.



O cenário geopolítico apresentou uma aparente melhora nos últimos dias, mas os fatos ainda não confirmam uma normalização. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, suspendeu novos ataques ao Irã e o preço do petróleo recuou no início da semana. Ao mesmo tempo, Irã e Omã avançaram nas negociações para uma possível reabertura do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo. Para Claudio Ferraz, economista-chefe da Galapagos Capital, porém, as expectativas de uma solução para o conflito avançaram mais rapidamente do que os acontecimentos concretos.

O acompanhamento do tráfego marítimo mostrou mais uma semana sem retomada relevante da circulação pelo Estreito de Ormuz. Também houve queda no movimento pelo Bab el-Mandeb, outro importante ponto de passagem na região. Além disso, os Houthis voltaram a ameaçar embarcações no Mar Vermelho, enquanto o Irã realizou ataques contra embarcações em Ormuz. Na avaliação de Ferraz, embora o governo americano sinalize novamente que uma solução para o conflito pode estar próxima e existam negociações para reabrir o estreito, a situação ainda está longe da normalidade e há sinais de que o conflito pode atingir uma área geográfica ainda maior.

Nos Estados Unidos, por outro lado, os indicadores econômicos da semana mostraram uma economia mais resistente do que o esperado. O índice de atividade industrial ISM (Institute for Supply Management) subiu para o maior nível desde 2022, enquanto o emprego na indústria voltou a crescer pela primeira vez em quase três anos. O ISM de serviços também permaneceu em nível elevado. Ao mesmo tempo, os preços pagos pelas empresas continuaram acima de um nível considerado compatível com uma inflação mais controlada, indicando que os preços de bens e serviços ainda sofrem pressão.

Esse cenário de economia resistente e inflação persistente aumentou a divisão dentro do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos. Segundo Ferraz, integrantes do Fed, como Lisa Cook e Mary Daly, reforçaram nesta semana que os riscos continuam concentrados no lado da inflação e que os juros poderão voltar a subir caso a redução da inflação não avance. Daly chegou a afirmar que, se as pressões sobre os preços continuarem persistentes, não faria sentido adotar uma política de redução gradual dos juros.

Na mesma direção, Alberto Musalem, presidente do Federal Reserve de St. Louis, afirmou que a alta dos juros de longo prazo é um sinal de que o Fed precisa recuperar sua credibilidade no combate à inflação. Ele também rejeitou a ideia de que o banco central estaria deixando para os mercados a definição de sua política monetária e reforçou que cabe ao Fed comunicar com clareza como reage aos diferentes indicadores econômicos.

O contraponto veio do relatório de emprego dos Estados Unidos, conhecido como payroll, divulgado na última sexta-feira (7 de agosto). O documento mostrou a criação líquida de apenas 23 mil vagas em julho, muito abaixo das 80 mil esperadas pelo mercado. Além disso, os números dos dois meses anteriores foram revisados para baixo em mais de 100 mil vagas. Os salários também mostraram desaceleração.

Parte da fraqueza do mercado de trabalho veio do setor público. A taxa de desemprego caiu para 4,1%, mas, segundo Ferraz, essa redução ocorreu principalmente porque menos pessoas estavam procurando emprego, e não porque houve uma forte expansão das contratações. A surpresa negativa do payroll tornou mais difícil uma alta dos juros pelo Fed já em setembro. Na avaliação do economista, agora seria necessária uma surpresa clara nos próximos indicadores para justificar uma elevação dos juros.

Por isso, o próximo dado de inflação ao consumidor dos Estados Unidos, conhecido como CPI (Consumer Price Index), ganhou ainda mais importância. O indicador será divulgado na próxima semana e poderá influenciar a discussão sobre os próximos passos do Fed. Segundo Ferraz, o banco central americano continua entre duas possibilidades: manter os juros no nível atual ou voltar a aumentá-los. O resultado mais fraco do mercado de trabalho, porém, aumentou a força do argumento pela manutenção dos juros por enquanto.

No Brasil, o principal destaque da semana passada foi a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que reduziu a taxa básica de juros, a Selic, em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. Como esperado por Ferraz e pelo mercado, a comunicação divulgada após a reunião foi mais curta e objetiva, o que foi bem recebido. O comitê demonstrou cautela e afirmou que acompanha de perto a piora das expectativas para a inflação.

Ferraz ressalta, porém, que as expectativas de inflação já vêm se deteriorando há algum tempo. Na avaliação do economista, o comunicado do Copom não trouxe um sinal claro de que o ciclo de cortes será interrompido imediatamente. Por isso, considerando o comportamento da inflação e alguns indicadores de atividade econômica no curto prazo, o cenário ainda é compatível com outro corte de 0,25 ponto percentual na reunião de setembro.

Depois dessa possível redução, entretanto, o cenário fica mais incerto. Para Ferraz, o equilíbrio de riscos e as incertezas da economia tornam mais provável uma pausa no ciclo de cortes a partir da reunião seguinte. A trajetória dos juros dependerá da evolução da inflação, da atividade econômica brasileira e também do cenário internacional.

Na semana a partir de 10 de agosto, três temas devem concentrar a atenção dos mercados. O primeiro são os dados de inflação dos Estados Unidos, que ganharam ainda mais importância depois do resultado mais fraco do mercado de trabalho. O segundo é a comunicação dos integrantes do Fed e como eles vão reagir aos novos dados de inflação e atividade. No Brasil, os investidores também acompanharão os indicadores de inflação e atividade econômica, além da evolução das pesquisas de opinião com a aproximação das eleições de outubro.

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