Saúde
28/07/2026
0 Comentário(s)

Duas em cada cinco pessoas nas Américas convivem com um transtorno neurológico

Estudo mostra que as pessoas estão vivendo mais, mas também passam mais tempo com doenças que afetam o cérebro e o sistema nervoso, aumentando a necessidade de reabilitação e cuidados de longo prazo. A enxaqueca foi o transtorno neurológico que afetou o maior número de pessoas. É também a principal causa de incapacidade relacionada a essas doenças.

Cerca de 470 milhões de pessoas nas Américas, o equivalente a duas em cada cinco, vivem com pelo menos um transtorno neurológico, como enxaqueca, acidente vascular cerebral (AVC), epilepsia ou doença de Alzheimer. A conclusão é de um estudo liderado por pesquisadores da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas. A pesquisa revela uma mudança importante no perfil dessas doenças: hoje, menos pessoas morrem precocemente por causa delas, mas um número cada vez maior convive por muitos anos com limitações físicas, cognitivas ou funcionais.

Os transtornos neurológicos são doenças que afetam o cérebro, a medula espinhal e os nervos. Dependendo do problema, podem comprometer a memória, o raciocínio, os movimentos, a fala, o equilíbrio, a aprendizagem e até o comportamento. Segundo os pesquisadores, o envelhecimento da população e o aumento da expectativa de vida fazem com que essas doenças se tornem um dos maiores desafios para os sistemas de saúde nas próximas décadas.

O estudo analisou dados de 38 países e territórios entre 1990 e 2023, com base no Estudo da Carga Global de Doenças (Global Burden of Disease Study). Em 2023, os transtornos neurológicos foram responsáveis por cerca de 1,1 milhão de mortes nas Américas e por 37,5 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade (Disability-Adjusted Life Years – DALYs), indicador que soma os anos perdidos por morte precoce aos anos vividos com doenças ou incapacidades. Juntas, essas condições responderam por aproximadamente 12% da carga total de doenças e lesões na região.

Embora as taxas de mortalidade tenham diminuído ao longo das últimas três décadas, o número de pessoas afetadas continua crescendo. Isso acontece porque a população está maior e mais envelhecida. Segundo Ramón Martínez, especialista em métricas de saúde da OPAS e autor principal do estudo, hoje mais pessoas sobrevivem a transtornos neurológicos, mas convivem por mais tempo com suas consequências. Em entrevista ao portal da OPAS, ele afirmou que os sistemas de saúde precisam se preparar para oferecer mais reabilitação, cuidados de longa duração e serviços de apoio.

A pesquisa mostra que as doenças neurológicas variam conforme a idade. Nas crianças com menos de cinco anos, destacam-se os defeitos do tubo neural, os transtornos do espectro autista e a epilepsia. Entre adolescentes e jovens adultos, a enxaqueca aparece como uma das principais causas de incapacidade. Já entre os idosos, a doença de Alzheimer, outras formas de demência e o acidente vascular cerebral lideram a perda de qualidade de vida.

A enxaqueca foi o transtorno neurológico que afetou o maior número de pessoas e também a principal causa de incapacidade relacionada a essas doenças. Em seguida aparecem a doença de Alzheimer e outras demências, o acidente vascular cerebral isquêmico e a hemorragia intracerebral. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a enxaqueca está entre as doenças que mais causam incapacidade no mundo, principalmente entre adultos em idade produtiva.

Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi o crescimento contínuo de doenças como Parkinson, esclerose múltipla, doenças do neurônio motor e transtornos do espectro autista. Entre todas as condições analisadas, o autismo foi a única de alta frequência que apresentou aumento constante na carga da doença durante todo o período estudado, indicando uma demanda crescente por serviços de saúde, educação e apoio às famílias.

O estudo também aponta que parte importante desses problemas poderia ser evitada com a redução de fatores de risco conhecidos. A pressão alta continua sendo a principal causa de acidente vascular cerebral, enquanto níveis elevados de glicose no sangue aumentam o risco de doença de Alzheimer e outras demências. A exposição ao chumbo e à poluição do ar também foi identificada como um fator que contribui para diversas doenças neurológicas.

Segundo o médico Anselm Hennis, diretor do Departamento de Doenças Não Transmissíveis e Saúde Mental da OPAS e coautor do estudo, controlar fatores como pressão alta, diabetes, obesidade e tabagismo, além de reduzir a exposição à poluição e a outras substâncias nocivas, pode trazer benefícios importantes para a saúde do cérebro. A declaração foi dada em entrevista ao portal da OPAS.

A pesquisa também revela diferenças importantes entre os países das Américas. Haiti, Guiana, Suriname, São Cristóvão e Nevis, República Dominicana e Paraguai apresentaram as maiores taxas de transtornos neurológicos, enquanto Porto Rico e alguns países da América do Sul registraram os menores índices. Segundo os autores, essas diferenças refletem desigualdades no acesso à prevenção, ao diagnóstico, ao tratamento, à reabilitação e aos cuidados de longo prazo.

Os pesquisadores alertam que a região enfrenta falta de neurologistas, serviços insuficientes de reabilitação e dificuldades de acesso a medicamentos e tecnologias essenciais. Para eles, enfrentar esse cenário exigirá fortalecer a prevenção, ampliar o atendimento especializado e integrar os cuidados neurológicos à atenção primária à saúde. Com o envelhecimento acelerado da população das Américas, investir nessas medidas será fundamental para reduzir a incapacidade e melhorar a qualidade de vida da população.

Proteja-se com a