A semana começou com piora no cenário geopolítico e terminou sem solução para o conflito no Oriente Médio. Segundo o economista Claudio Ferraz, economista-chefe da Galapagos Capital, “o nível de tensão segue elevado”, mesmo após movimentos pontuais de tentativa de trégua. O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a apreensão de um navio iraniano, enquanto o Irã demonstrou hesitação em participar de novas negociações.
Na semana que passou, houve uma sinalização de alívio quando Trump estendeu o cessar-fogo com o Irã por prazo indeterminado. Ainda assim, manteve o bloqueio naval aos portos iranianos. Para o governo iraniano, essa medida é vista como um ato de guerra e um obstáculo direto às negociações. “Seguimos com um ambiente de incerteza, em que há diálogo, mas sem avanços concretos”, afirma Ferraz.
Ao longo da semana, o cenário voltou a se deteriorar. O Irã apreendeu embarcações no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte de petróleo, e autoridades locais passaram a afirmar que a reabertura total da passagem é inviável nas condições atuais. Em resposta, os Estados Unidos intensificaram a apreensão de petroleiros com destino à China. O impacto foi imediato: o petróleo tipo Brent voltou a ser negociado acima de 100 dólares por barril.
A Agência Internacional de Energia alertou que o mundo enfrenta “a maior ameaça à segurança energética da história”. Mesmo com tentativas de negociação, como uma reunião prevista no Paquistão que acabou cancelada, não houve avanço diplomático. “Mais uma semana passou e o conflito não se resolveu, mas também não escalou de forma decisiva”, resume Ferraz. Segundo ele, o Estreito de Ormuz continua operando de forma “completamente disfuncional”.
Esse ambiente de tensão já começa a afetar a economia global de forma mais clara. Nos Estados Unidos, a Universidade de Michigan mostrou aumento nas expectativas de inflação. A projeção para os próximos 12 meses subiu de 3,8% para 4,7%, enquanto a expectativa para cinco anos avançou de 3,2% para 3,5%. “As expectativas estão desancorando, o que exige mais cautela da política monetária”, explica o economista.
Outro indicador importante, o Índice de Gerentes de Compras, conhecido pela sigla em inglês PMI (Purchasing Managers’ Index), reforçou essa tendência. A indústria surpreendeu positivamente, mas parte desse movimento reflete a formação de estoques diante da incerteza. Ao mesmo tempo, os componentes de preços e custos atingiram o maior nível desde 2022. “Há uma pressão inflacionária clara vindo do choque de energia”, diz Ferraz.
Na Europa, o quadro é mais frágil. O PMI entrou em contração pela primeira vez em 16 meses, puxado pelo setor de serviços. Ainda assim, custos e preços também aceleraram, atingindo o maior nível em três anos. Esse cenário combina crescimento mais fraco com inflação elevada, o que dificulta a atuação dos bancos centrais.
Nos Estados Unidos, ganhou destaque a audiência de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve (Fed), o banco central americano. Segundo o economista, Warsh indicou que “a tendência inflacionária pode ser mais benigna do que os dados atuais sugerem”, mas defendeu mudanças na forma como o banco central conduz sua política de inflação.
No Brasil, a semana teve poucos indicadores, mas as expectativas pioraram. O Boletim Focus, relatório que reúne projeções de mercado, elevou a previsão de inflação para 2026 para 4,86%, com revisões para cima também nos anos seguintes. A expectativa para a taxa básica de juros, a Selic, em 2026 está em 13%. “Vemos riscos com tendência de alta para essas projeções, especialmente com o cenário externo pressionado”, afirma Ferraz.
Apesar disso, o país aparece como um dos possíveis beneficiados nesse contexto. Por ser exportador líquido de petróleo e ter juros elevados, o Brasil pode atrair investidores em busca de retorno. “O país surge como um destino relativamente atrativo em meio ao choque energético global”, avalia o economista.
Para a próxima semana, o foco estará nas decisões de política monetária. O Federal Reserve (Fed) deve manter os juros inalterados. Já o Comitê de Política Monetária, o Copom, do Banco Central do Brasil, pode promover um novo corte de 0,25 ponto percentual. Segundo Ferraz, “a comunicação após a reunião será crucial, diante da inflação pressionada e das expectativas em deterioração”.
Enquanto isso, o mercado seguirá atento à evolução do conflito no Estreito de Ormuz. Sem uma normalização efetiva da rota, a tendência é de petróleo elevado e inflação persistente. “Esse é o principal risco no horizonte global hoje”, conclui Ferraz.