Pela primeira vez, dois robôs humanoides trabalharam juntos para realizar uma cirurgia em animais de grande porte com sucesso. Embora cada movimento tenha sido comandado à distância por cirurgiões humanos, o estudo representa um avanço importante porque mostra que robôs menores, mais baratos e fáceis de transportar poderão ampliar o acesso a procedimentos cirúrgicos em locais onde hoje faltam médicos, hospitais equipados e tecnologia.
Os pesquisadores realizaram duas cirurgias para retirar a vesícula biliar. Na primeira, um robô humanoide trabalhou ao lado de um cirurgião humano. Na segunda, dois robôs humanoides atuaram juntos durante todo o procedimento. Em ambos os casos, as cirurgias foram realizadas em suínos e todos os movimentos dos robôs foram controlados, em tempo real, por cirurgiões à distância. O objetivo do estudo não foi substituir o médico, mas mostrar que esse tipo de robô poderá funcionar como uma extensão das mãos do cirurgião, permitindo que especialistas operem pacientes mesmo estando a milhares de quilômetros de distância.
A pesquisa foi publicada em 8 de julho na revista científica Nature e reúne engenheiros e cirurgiões da Universidade da Califórnia em San Diego (UC San Diego), nos Estados Unidos. Em entrevista à Associação Americana para o Avanço da Ciência (American Association for the Advancement of Science – AAAS), publicada na mesma data, Michael Yip, professor do Departamento de Engenharia Elétrica e de Computação da universidade e um dos autores sêniores do estudo, afirmou que a escassez de cirurgiões cresce em várias regiões do mundo, enquanto aumenta a demanda por atendimento. Como consequência, os pacientes enfrentam filas maiores, dificuldade de acesso e desigualdade na assistência à saúde.
Hoje, os principais sistemas robóticos usados em hospitais são equipamentos desenvolvidos exclusivamente para cirurgia. Eles possuem vários braços robóticos, utilizam instrumentos específicos, dependem de programas exclusivos e ocupam grande espaço dentro do centro cirúrgico. Além disso, pesam cerca de 816 quilos, exigem equipes especializadas para instalação e custam milhões de dólares, o que limita sua utilização a grandes hospitais.
Já os robôs humanoides utilizados no estudo têm características muito diferentes. Medem cerca de 1,52 metro de altura, pesam apenas 27 quilos e custam aproximadamente US$ 20 mil, uma pequena fração do preço dos sistemas cirúrgicos convencionais. Como são compactos e podem caminhar, são mais fáceis de transportar e instalar em praticamente qualquer ambiente.
Segundo os pesquisadores, essa mobilidade abre possibilidades para o uso da tecnologia em comunidades isoladas, regiões rurais, áreas atingidas por desastres naturais, operações militares, missões de busca e salvamento e até futuras missões espaciais. Nesses locais, muitas vezes o maior desafio não é apenas a falta de equipamentos, mas a ausência física de um cirurgião especializado. “O maior problema é a presença física. Um robô humanoide que pode ser teleoperado por um especialista a milhares de quilômetros pode ajudar a superar essa barreira”, explicou Michael Yip à AAAS.
Para a equipe, o estudo representa o primeiro passo para incorporar robôs humanoides à rotina das salas de cirurgia. Inicialmente, eles poderão auxiliar os profissionais durante os procedimentos. No futuro, poderão realizar cirurgias cada vez mais complexas, sempre sob a supervisão e o comando de cirurgiões.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que a tecnologia ainda precisa evoluir antes de chegar aos hospitais. Durante os testes, os robôs precisaram ser recalibrados várias vezes, o que tornou as cirurgias mais demoradas do que aquelas realizadas com os sistemas robóticos especializados disponíveis atualmente.
Outro desafio é reduzir a latência, nome dado ao pequeno atraso entre o movimento feito pelo cirurgião no controle e a resposta do robô. Quanto maior a distância entre o médico e o equipamento, maior tende a ser esse intervalo. A equipe trabalha para diminuir esse tempo de resposta e tornar as operações remotas mais rápidas e precisas.
Na entrevista, Michael Yip informa que a evolução desse tipo de tecnologia costuma ser rápida. Segundo ele, as primeiras cirurgias robóticas por videolaparoscopia levavam cerca de seis horas para serem concluídas. Hoje, procedimentos semelhantes podem durar aproximadamente 30 minutos.
Além de participar das cirurgias, os pesquisadores imaginam que, no futuro, os robôs humanoides também possam atuar como assistentes dentro do centro cirúrgico, buscando instrumentos, organizando equipamentos e auxiliando a equipe médica em tarefas físicas.
“Nossa meta é criar uma sala de cirurgia do futuro, onde robôs humanoides e seres humanos trabalhem lado a lado, como uma equipe integrada, para realizar procedimentos tanto em hospitais quanto em cenários desafiadores, como a medicina de campo”, afirmou Michael Yip à reportagem da AAAS.