O cenário econômico global ficou mais complicado na semana encerrada em 18 de setembro. O conflito no Oriente Médio ganhou novos capítulos, pressionando o mercado de petróleo, enquanto as decisões dos principais bancos centrais mostraram que a inflação continua sendo uma preocupação. No Brasil, o Banco Central reduziu os juros, mas deixou em aberto o próximo passo. A avaliação é de Claudio Ferraz, sócio e economista-chefe da Galapagos Capital, na coluna semanal Weekly Macro View.
No Oriente Médio, um ataque com drones tirou de operação parte do oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita, uma importante alternativa para transportar petróleo sem depender do Estreito de Ormuz. Ao mesmo tempo, os houthis intensificaram os ataques na região do Estreito de Bab el-Mandeb, uma passagem estratégica para o comércio marítimo.
As conversas entre o Irã e países do Golfo sobre uma possível rota temporária pelo Estreito de Ormuz também foram adiadas. Apesar de alguma melhora nas notícias no fim da semana, o petróleo Brent continuou em níveis elevados, refletindo a incerteza sobre o fornecimento mundial.
Nesse cenário, as decisões dos bancos centrais ganharam ainda mais importância. O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, elevou os juros em 0,25 ponto percentual, para a faixa entre 3,75% e 4% ao ano, em uma decisão unânime.
Foi a primeira alta desde 2023. Nas novas projeções, o Fed passou a indicar uma economia americana mais forte, com desemprego menor, mas também uma inflação mais persistente.
Segundo Ferraz, 16 dos 18 dirigentes do banco projetam pelo menos mais uma alta dos juros ainda neste ano. Na avaliação do economista, a comunicação do Fed foi mais rígida em relação à inflação, sinalizando menor disposição para estimular a economia.
O presidente do Fed, Kevin Warsh, reforçou essa mensagem após a decisão. Segundo Ferraz, Warsh afirmou que as condições esperadas desde o encontro de Jackson Hole ainda não foram alcançadas, porque a inflação não apresentou uma convergência suficientemente clara e rápida para a meta de 2%.
O economista também destacou a afirmação de Warsh de que o Fed está retirando parte do estímulo monetário, movimento que pode manter os juros americanos elevados por mais tempo. Para Ferraz, ainda é necessário acompanhar as próximas declarações dos dirigentes do banco central para entender a trajetória dos juros.
Nos Estados Unidos, os dados de atividade também mostraram uma economia mais resistente do que o esperado. As vendas do varejo de agosto surpreenderam positivamente, enquanto o chamado grupo de controle, indicador usado para avaliar melhor o comportamento do consumo, avançou 1,4%, maior alta em quase dois anos.
Por outro lado, a produção industrial apresentou queda de 0,3%, a primeira retração da indústria de transformação em sete meses. Mesmo assim, Ferraz considera que o quadro geral da indústria americana continua positivo.
No Japão, o Banco do Japão (BoJ) elevou os juros em 0,25 ponto percentual, para 1,25% ao ano, o maior nível em mais de 30 anos. A decisão, porém, foi dividida, com sete votos a favor da alta e dois contrários, explica Claudio Ferraz.
A falta de uma sinalização clara sobre os próximos passos acabou sendo interpretada pelos mercados como uma postura mais branda, e o iene, moeda japonesa, perdeu valor mesmo com o aumento dos juros.
Na Inglaterra, o Banco da Inglaterra (BoE) manteve a taxa de juros, também com uma votação dividida, de seis a três. O banco reconheceu, porém, que o aumento dos custos de energia já se aproxima de um cenário mais preocupante e que a inflação pode superar 4% no início do próximo ano, segundo o economista.
No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, como era amplamente esperado. Segundo Ferraz, o comunicado divulgado após a reunião trouxe poucas mudanças, mas adotou um tom um pouco mais favorável à continuidade dos cortes.
O Banco Central passou a afirmar que os indicadores mostram uma moderação gradual da atividade econômica. Para o economista, isso mantém aberta a possibilidade de uma nova redução dos juros em novembro, embora a decisão dependa principalmente dos próximos dados de inflação, atividade e das condições fiscais do país.
Os sinais de perda de ritmo da economia brasileira continuam aparecendo. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) caiu 0,2% em julho, com fraqueza espalhada por diferentes setores. Os dados disponíveis também apontam para um crescimento próximo de zero no terceiro trimestre. Ao mesmo tempo, a inflação voltou a apresentar sinais de pressão.
O Índice Geral de Preços – 10 (IGP-10) passou de uma queda para uma alta próxima de 1,5% no mês, influenciado principalmente pelo petróleo, pelo minério de ferro e pelos preços de alimentos in natura. As expectativas também pioraram: o Boletim Focus voltou a elevar a previsão para a inflação acumulada nos próximos 12 meses, para perto de 4,70%.
Para as próximas semanas, Ferraz destaca dois pontos de atenção. No exterior, o mercado deve acompanhar as declarações dos dirigentes do Federal Reserve para tentar entender se haverá uma nova alta dos juros americanos já em outubro.
“No Brasil, será importante observar se a inflação realmente voltou a acelerar em setembro e como o Banco Central explicará seus próximos passos na ata do Copom e no Relatório de Política Monetária (RPM). A comunicação do Banco Central será especialmente importante para indicar até onde o atual ciclo de redução da Selic poderá avançar”, diz Claudio Ferraz.