O agravamento dos conflitos no Oriente Médio elevou as incertezas sobre a economia mundial na semana encerrada em 16 de outubro. Os ataques se espalharam pela região, envolvendo os houthis, grupo armado do Iêmen, a Arábia Saudita e o Irã. Segundo Claudio Ferraz, economista-chefe da Galapagos Capital, os houthis atacaram alvos sauditas, incluindo o aeroporto de Riad e a sede da petrolífera Aramco.
O Irã, por sua vez, intensificou as ações contra embarcações no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo. Segundo autoridades ouvidas por agências de notícias, a estratégia iraniana seria manter o petróleo caro até as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos. A Casa Branca também voltou a avaliar uma ofensiva contra instalações nucleares e de energia iranianas.
O preço do petróleo Brent, referência internacional, chegou perto de US$ 106 por barril, mas esse valor não mostra toda a dimensão do problema. Os custos do transporte marítimo, do diesel e do petróleo negociado para entrega física estão ainda mais elevados.
Para tentar conter a disparada dos fretes, a Casa Branca chegou a estudar o alívio de sanções a embarcações da chamada frota paralela, utilizada para transportar petróleo fora dos canais comerciais convencionais. Segundo Ferraz, é por meio desses custos mais altos de energia e transporte que a crise começa a chegar ao consumidor, encarecendo produtos e serviços.
Os indicadores de inflação dos Estados Unidos divulgados na semana reforçaram essa preocupação. O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) subiu 0,65% em setembro e acumulou alta de 3,7% em 12 meses. Mais da metade do aumento mensal veio da gasolina.
O dado que mais chamou a atenção, porém, foi o chamado núcleo da inflação, que exclui itens mais sujeitos a oscilações, como alimentos e energia. Esse indicador avançou 0,34% no mês, acima dos 0,2% esperados pelo mercado. Os aumentos também se espalharam por bens e serviços, com mais da metade dos componentes registrando inflação anual superior a 3%.
Outro indicador, o índice de preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês), que acompanha os preços recebidos pelas empresas, registrou a maior alta mensal desde março de 2022. O resultado indica que a pressão dos custos de energia já alcança o transporte, os fretes e as margens de distribuição.
Com isso, também aumentaram as projeções para o núcleo do índice de preços das despesas de consumo pessoal (PCE, na sigla em inglês), uma das medidas de inflação mais importantes para o Federal Reserve (Fed), o banco central americano.
A economia dos Estados Unidos, entretanto, ainda não mostra sinais claros de desaceleração significativa. As vendas do varejo perderam força em relação ao desempenho excepcional de agosto, mas o consumo continua resistente.
Os pedidos de seguro-desemprego permaneceram abaixo de 200 mil por cinco semanas consecutivas, sinal de que as demissões seguem em níveis baixos. Para Ferraz, esse cenário mantém a inflação no centro das decisões do Fed e torna mais difícil definir quando e em que intensidade os juros devem mudar.
As declarações recentes de dirigentes do banco central americano mostram que ainda não há consenso sobre o próximo passo. Austan Goolsbee classificou o resultado do CPI como desanimador e afirmou que vários meses de inflação subjacente acima de 4% em ritmo anualizado seriam inaceitáveis.
Mary Daly reconheceu que os riscos aumentaram, mas ponderou que não há necessidade de agir com urgência, já que ainda existem reuniões pela frente. Em 15 de outubro, durante um evento do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kevin Warsh também destacou que o forte investimento pressiona a demanda no presente, antes de gerar ganhos de produtividade, e descreveu esse processo como turbulento, sem antecipar a próxima decisão do Fed.
Após os dados de inflação, as apostas do mercado em uma alta de juros já em outubro chegaram a superar 50%, mas perderam força posteriormente. Ferraz mantém a avaliação de que o ciclo de juros está entre 75 e 125 pontos-base, unidade equivalente a um centésimo de ponto percentual por ponto-base, e considera mais provável que o Fed mantenha os juros inalterados em outubro e deixe uma eventual alta para dezembro. A incerteza, porém, aumentou diante da dificuldade de conciliar a pressão inflacionária com os sinais ainda positivos da atividade econômica.
No Brasil, os indicadores também apontaram mudanças importantes. Os dados de serviços e do varejo de agosto ficaram bem abaixo das expectativas, indicando perda de fôlego da atividade.
O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB), surpreendeu ligeiramente para cima, mas não alterou o quadro geral. Segundo Ferraz, o desempenho recente deixa um efeito negativo para o terceiro trimestre e aumenta a possibilidade de retração da economia no período.
Ao mesmo tempo, as expectativas de inflação continuam preocupantes. O relatório Focus, do Banco Central, mostrou que a projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026 voltou a subir, para 5,22%. As expectativas para prazos mais longos também permanecem acima do desejado, sinal de que o mercado ainda não confia plenamente na convergência da inflação para a meta.
No campo fiscal, o governo zerou os tributos federais sobre a gasolina, enquanto o Senado aprovou a ampliação do limite de faturamento do microempreendedor individual (MEI), acompanhada de medidas para perdão de dívidas com a União.
Outro tema de preocupação foi a aprovação do fim gradual da escala de trabalho seis por um, com redução da jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, sem corte salarial. Sem entrar no mérito da proposta, Ferraz avalia que a mudança pode elevar o custo de cada hora trabalhada para as empresas, especialmente em atividades que dependem de muita mão de obra. A preocupação é relevante porque os preços de serviços já acumulam aumentos próximos ou superiores a 7,5% em 12 meses. Até o momento, o Banco Central não apresentou novas sinalizações sobre os próximos passos da política monetária.
Para a semana seguinte, Ferraz destaca três pontos de atenção. O primeiro são as pesquisas eleitorais, com a aproximação do segundo turno das eleições, marcado para 25 de outubro, em um cenário que sugere uma disputa apertada.
O segundo é a decisão do Fed, prevista para 28 de outubro. Apesar dos dados recentes de inflação e atividade indicarem um cenário mais desafiador, a expectativa do economista é de manutenção dos juros.
O terceiro é a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, em novembro. O colegiado terá de avaliar como equilibrar uma economia brasileira em desaceleração com novas pressões que podem manter a inflação elevada até o fim do ano.