A semana encerrada em 3 de julho foi marcada por mudanças importantes no cenário econômico internacional. O preço do petróleo caiu para um novo patamar, o mercado de trabalho dos Estados Unidos apresentou sinais de desaceleração e os principais bancos centrais do mundo reforçaram que continuarão atentos à inflação antes de decidir os próximos passos da política de juros. A avaliação é do economista-chefe da Galapagos Capital, Claudio Ferraz, na análise semanal Weekly Macro View.
Segundo Ferraz, a queda do petróleo indica que parte das preocupações provocadas pelo conflito entre Israel e Irã perdeu força. Com o avanço das negociações entre Estados Unidos e Irã, realizadas em Doha, no Catar, e a retomada gradual da circulação de navios pelo Estreito de Ormuz — uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo —, o preço da commodity voltou a níveis próximos aos registrados antes da escalada das tensões no Oriente Médio.
Nos Estados Unidos, o principal destaque foi o relatório oficial de emprego de junho. Foram criadas 57 mil vagas de trabalho, número bem abaixo das cerca de 110 mil esperadas pelo mercado financeiro. Além disso, os dados dos dois meses anteriores foram revisados para baixo, indicando um desempenho mais fraco do mercado de trabalho.
Apesar disso, Claudio Ferraz afirma que ainda não há sinais de deterioração da economia norte-americana. Na avaliação dele, o mercado de trabalho continua equilibrado. A média de criação de empregos nos últimos três meses permanece acima do ritmo considerado suficiente para acompanhar o crescimento da economia dos Estados Unidos. O economista explica que esse ritmo também vem diminuindo por fatores estruturais, como o envelhecimento da população e a redução da imigração.
Outro dado observado foi a taxa de desemprego, que caiu para 4,2%. Segundo Ferraz, essa redução ocorreu principalmente porque menos pessoas estavam procurando emprego, e não necessariamente porque houve um aumento significativo nas contratações.
Esse cenário influencia diretamente as decisões do Banco Central dos Estados Unidos, conhecido como Federal Reserve (Fed). Para o economista, os números reduzem a pressão para um novo aumento dos juros, mas ainda não justificam um corte. A expectativa é que a instituição mantenha as taxas estáveis ao longo de 2026 enquanto acompanha a evolução da inflação nos próximos meses.
O tema também dominou os debates no encontro anual dos principais bancos centrais realizado em Sintra, Portugal. De acordo com Ferraz, as autoridades monetárias defenderam uma postura mais flexível na comunicação e reforçaram que o compromisso com o controle da inflação continua sendo prioridade.
Na Europa, a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, explicou que o aumento dos juros promovido em junho foi necessário diante da inflação ainda elevada. No entanto, com a redução da pressão provocada pelos preços da energia, dirigentes da instituição passaram a indicar que o cenário está mais favorável e que, por enquanto, não há necessidade de novas altas imediatas.
Já nos Estados Unidos, o discurso das autoridades do Federal Reserve continua mais cauteloso. Um dos motivos é o crescimento dos investimentos em Inteligência Artificial (IA). Embora a tecnologia seja vista como positiva para a economia no longo prazo, Ferraz destaca que ela pode pressionar a inflação no curto prazo, ao aumentar a demanda por energia, infraestrutura e mão de obra antes que os ganhos de produtividade apareçam.
No Brasil, o cenário continua desafiador. Alguns indicadores mostram que a atividade econômica começa a perder força. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) registrou um número de novas vagas abaixo do esperado, o crédito apresentou desaceleração em alguns segmentos e a produção industrial também ficou abaixo das projeções.
Mesmo assim, Ferraz ressalta que esses dados ainda não são suficientes para indicar uma desaceleração significativa da economia. Ao mesmo tempo, a inflação continua acima da meta definida pelo Banco Central, as expectativas para os preços futuros permanecem elevadas e as contas públicas voltaram a se deteriorar. O déficit do setor público ficou acima do esperado e a dívida bruta do governo alcançou cerca de 81% do Produto Interno Bruto (PIB), indicador que representa a soma de todas as riquezas produzidas pelo país em um ano.
Na avaliação do economista, a combinação entre economia ainda resistente, inflação elevada e piora do cenário fiscal recomenda cautela ao Comitê de Política Monetária (Copom), órgão do Banco Central responsável por definir a taxa básica de juros, a Selic. Segundo Ferraz, os próximos indicadores de inflação, das contas públicas e o comportamento dos bancos centrais internacionais serão decisivos para avaliar os rumos da reunião do Copom prevista para agosto.