A possibilidade de um acordo entre Irã e Estados Unidos para reduzir as tensões no Oriente Médio ganhou força no fim da última semana, mas novos episódios de confronto militar mantiveram os mercados em estado de alerta. Segundo análise do economista-chefe da Galapagos Capital, Claudio Ferraz, na edição da Weekly Macro View encerrada em 1º de junho de 2026, o cenário internacional continua marcado por elevada incerteza geopolítica e por preocupações persistentes com a inflação, fatores que influenciam diretamente as decisões sobre juros em diversas economias.
A semana começou com um sinal positivo. O Irã demonstrou disposição para avançar em um memorando de 14 pontos voltado ao encerramento da guerra e ao fim das restrições no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas para o transporte de petróleo no mundo. “Em troca, o país buscava garantias de navegação segura na região. No entanto, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, esfriou as expectativas ao afirmar que não havia pressa para um acordo e ao defender que as negociações também incluam a questão nuclear iraniana”, explica Ferraz.
Ao longo dos dias, a situação voltou a se deteriorar. Os Estados Unidos realizaram ataques contra alvos militares na região em duas ocasiões, drones foram derrubados próximos a embarcações comerciais e o Kuwait acionou seus sistemas de defesa antiaérea.
Apesar disso, o cessar-fogo permaneceu oficialmente em vigor. Segundo o economista, na sexta-feira, surgiram notícias de que americanos e iranianos teriam chegado a um entendimento para prorrogar o cessar-fogo por mais 60 dias e iniciar negociações sobre o programa nuclear do Irã. No entanto, novos confrontos registrados durante o fim de semana voltaram a aumentar a cautela dos investidores. Embora o acordo ainda dependa da aprovação final de Trump, o mercado continua considerando uma solução diplomática como o cenário mais provável.
Nos Estados Unidos, o principal destaque econômico da semana foi a divulgação do índice de gastos com consumo pessoal (Personal Consumption Expenditures – PCE), indicador de inflação mais acompanhado pelo Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano, explica Ferraz. “O resultado de abril veio ligeiramente melhor do que o esperado. O núcleo do indicador, que exclui itens mais voláteis como alimentos e energia, avançou 0,2% no mês, abaixo da projeção do mercado. Ainda assim, a inflação permanece elevada, com taxa anual de 3,3%, acima da meta oficial de 2%”, diz.
Segundo Claudio Ferraz, os dados também mostraram uma desaceleração da inflação de serviços, enquanto a economia perdeu um pouco de força. A segunda revisão do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos reduziu o crescimento do primeiro trimestre de 2% para 1,6%. Mesmo assim, dirigentes do Fed continuam demonstrando preocupação com a inflação.
Enquanto alguns membros defendem a possibilidade de elevar os juros caso os preços continuem acelerando, outros avaliam que parte da pressão inflacionária é temporária e recomendam cautela. Para Claudio Ferraz, a mensagem comum é que os juros devem permanecer elevados por mais tempo.
Na Europa, o discurso segue ainda mais rígido. A dirigente do Banco Central Europeu (ECB), Isabel Schnabel, afirmou que o aumento dos custos de energia já está se espalhando para outros setores da economia, elevando os riscos de inflação persistente.
De acordo com o economista, o cenário atual aumenta as chances de uma nova alta de juros na reunião do banco central europeu prevista para junho.
No Brasil, os dados também reforçaram as preocupações inflacionárias. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), considerado uma prévia da inflação oficial, subiu 0,62% em maio, resultado acima das expectativas do mercado.
Com isso, a inflação acumulada em 12 meses voltou a superar o teto da meta estabelecida pelo Banco Central do Brasil. Além disso, indicadores que medem a tendência dos preços mostraram novas acelerações, especialmente nos serviços e nos setores mais ligados ao mercado de trabalho, que continua aquecido.
As projeções para a inflação dos próximos anos também seguem em alta, o que aumenta o desafio para o Banco Central. De acordo com Claudio Ferraz, a autoridade monetária enfrenta um cenário cada vez mais desconfortável, marcado por inflação elevada, expectativas deterioradas e sinais de que a desaceleração dos preços pode levar mais tempo do que o esperado.
Para os próximos dias, as atenções estarão voltadas para dois temas principais. No cenário internacional, o mercado acompanhará a decisão de Donald Trump sobre a possível extensão do cessar-fogo com o Irã e os desdobramentos das negociações.
Já nos Estados Unidos, a divulgação do Payroll, relatório oficial de emprego, poderá oferecer novos sinais sobre a força da economia e os próximos passos do Fed.
Para o Brasil, Claudio Ferraz explica que os investidores e analistas devem seguir atentos às comunicações do Banco Central, em meio à crescente percepção de que o atual ciclo de redução dos juros pode ser interrompido temporariamente caso as pressões inflacionárias persistam.