A semana encerrada em 8 de junho foi marcada por novas tensões geopolíticas no Oriente Médio e por sinais de inflação persistente em várias partes do mundo. O cenário elevou a cautela dos mercados financeiros e reforçou a preocupação de investidores com a possibilidade de juros altos permanecerem por mais tempo. A avaliação é do sócio e economista-chefe da Galapagos Capital, Claudio Ferraz, na coluna Weekly Macro View.
O clima começou mais positivo depois que o Irã sinalizou disposição para negociar um memorando com 14 pontos voltado ao fim da guerra e do bloqueio naval no Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes para o transporte de petróleo no mundo. Em troca, o país buscava garantias de navegação segura na região, explica o economista Claudio Ferraz.
Mas o cenário mudou rapidamente. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, esfriou as expectativas ao pedir que seus representantes não acelerassem as negociações e voltou a defender a inclusão do tema nuclear no acordo.
Ao longo da semana, a tensão aumentou. Os Estados Unidos realizaram dois ataques contra alvos militares na região. Além disso, quatro drones foram derrubados próximos a uma embarcação comercial, enquanto o Kuwait informou que ativou seus sistemas de defesa antiaérea.
Mesmo com os episódios de confronto, o cessar-fogo permaneceu oficialmente em vigor, ainda que em uma situação considerada frágil. Na sexta-feira, surgiram novas informações indicando que Estados Unidos e Irã teriam chegado a um entendimento para prolongar formalmente a trégua por 60 dias e iniciar negociações sobre o programa nuclear iraniano.
No entanto, o fim de semana voltou a trazer novos confrontos militares. O acordo ainda depende da aprovação final de Trump, que pediu mais alguns dias para avaliar a proposta. Apesar das incertezas, o mercado financeiro ainda considera o entendimento diplomático como o cenário mais provável neste momento.
Na economia dos Estados Unidos, o principal destaque foi a divulgação do Índice de Gastos com Consumo Pessoal (PCE, na sigla em inglês), indicador de inflação preferido do Federal Reserve (Fed), o banco central americano.
O dado de abril veio ligeiramente melhor do que o esperado pelo mercado. O núcleo da inflação, que desconsidera preços mais voláteis como alimentos e energia, subiu 0,2% no mês, abaixo da expectativa de 0,3%. Mesmo assim, a inflação acumulada em 12 meses alcançou 3,3%, ainda em um nível elevado para os padrões americanos.
Outro ponto observado pelos analistas foi a desaceleração da inflação de serviços, que avançou apenas 0,1% no mês, o menor ritmo desde abril do ano passado. Já a economia americana mostrou perda de força. A segunda leitura do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre foi revisada para baixo, passando de crescimento de 2% para 1,6%.
Segundo Ferraz, as falas de dirigentes do Fed também chamaram atenção. A diretora Lisa Cook adotou um discurso mais duro contra a inflação, afirmando que o banco central poderá voltar a elevar os juros caso a inflação não retorne de forma convincente à meta de 2%.
Já Michelle Bowman apresentou uma visão mais cautelosa. Segundo ela, parte da alta recente da inflação pode ser temporária, influenciada por fatores como energia e tarifas. Por isso, defendeu mais paciência antes de novas decisões.
Enquanto isso, Mary Daly, presidente do Fed de São Francisco, afirmou que não há urgência para alterar os juros neste momento.
Apesar das diferenças no discurso, a avaliação predominante entre os dirigentes do banco central americano é de que os juros devem continuar elevados por mais tempo.
Na Europa, o discurso também ficou mais rígido. Isabel Schnabel, dirigente do Banco Central Europeu (ECB, na sigla em inglês), afirmou que o choque nos preços de energia já está contaminando outros setores da economia e aumentando o risco de a inflação permanecer elevada por mais tempo.
Com isso, cresce a expectativa de uma nova alta de juros pelo Banco Central Europeu ainda neste mês de junho.
No Brasil, os números da inflação também vieram piores do que o esperado. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), considerado uma prévia da inflação oficial, subiu 0,62% em maio e ficou acima das projeções do mercado.
Com isso, a inflação acumulada em 12 meses voltou a acelerar e atingiu 4,6%, acima do teto da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional.
Além da alta dos preços em geral, os detalhes do indicador também preocupam. Os chamados núcleos de inflação, que ajudam a medir a tendência mais persistente da alta de preços, continuam avançando acima de 5% ao ano.
Os serviços ligados ao mercado de trabalho também seguem pressionados. Itens que dependem mais da mão de obra, como alguns serviços pessoais, mostram inflação acima de 7% ao ano, refletindo um mercado de trabalho ainda aquecido.
As expectativas para a inflação futura também pioraram. As projeções do mercado para 2026 voltaram a subir e já começam a pressionar também as estimativas para 2027 e 2028, diz Claudio Ferraz.
Para os analistas, o Banco Central brasileiro enfrenta um cenário cada vez mais desconfortável: inflação corrente elevada, preços persistentes e expectativas acima da meta por vários anos seguidos.
Nos próximos dias, o foco dos mercados estará nos dados do mercado de trabalho dos Estados Unidos, principalmente o Payroll, relatório oficial de empregos que será divulgado na sexta-feira. O indicador é considerado fundamental para as próximas decisões do Fed sobre juros.
Além disso, investidores seguirão acompanhando os desdobramentos das negociações entre Estados Unidos e Irã, especialmente após os novos confrontos militares registrados no fim de semana.
O economista explica que, no Brasil, a atenção estará voltada para as sinalizações do Banco Central, em meio à percepção crescente de que o atual ciclo de alta de juros pode entrar em pausa nos próximos meses.