Uma pesquisa divulgada neste ano traz uma notícia que pode mudar a forma de prevenir doenças do coração. Cientistas descobriram que exames de sangue simples, já disponíveis em hospitais e laboratórios, conseguem identificar com antecedência quais pessoas com pré-diabetes e pressão alta têm maior risco de desenvolver insuficiência cardíaca nos anos seguintes. A descoberta foi publicada na revista científica JAMA Cardiology e reforça a importância de agir antes que os primeiros sintomas apareçam.
A insuficiência cardíaca é uma condição em que o coração perde a capacidade de bombear sangue adequadamente para o corpo. Ela costuma se desenvolver de forma lenta e, muitas vezes, só é descoberta quando os danos já estão mais avançados. Por isso, identificar pessoas em maior risco antes do surgimento dos sintomas pode fazer grande diferença no tratamento e na prevenção.
A descoberta ganha ainda mais importância porque a pré-diabetes é uma condição extremamente comum e, na maioria das vezes, passa despercebida. No Brasil, cerca de 40 milhões de adultos vivem nessa fase intermediária, em que os níveis de açúcar no sangue estão acima do normal, mas ainda não são suficientemente altos para caracterizar diabetes. Isso significa que aproximadamente um em cada quatro adultos brasileiros apresenta a condição.
O problema é que a pré-diabetes quase nunca provoca sintomas. Muitas pessoas convivem com a alteração durante anos sem saber. De acordo com os critérios adotados internacionalmente, a pré-diabetes é identificada quando a glicemia em jejum fica entre 100 e 125 miligramas por decilitro de sangue. A partir de 126 miligramas por decilitro, em exames com confirmação, já pode haver diagnóstico de diabetes.
Segundo a Federação Internacional de Diabetes, mais de meio bilhão de pessoas vivem atualmente com diabetes no mundo. Além disso, centenas de milhões apresentam pré-diabetes e correm maior risco de desenvolver a doença e outras complicações relacionadas ao sistema cardiovascular.
Foi justamente para entender melhor esse risco que os pesquisadores realizaram o estudo. Eles analisaram informações de 8.234 pessoas com 50 anos ou mais que tinham hipertensão arterial, conhecida popularmente como pressão alta, mas ainda não haviam sido diagnosticadas com diabetes. O objetivo era descobrir se sinais muito discretos de dano ao coração, detectados por exames de sangue, poderiam indicar quem tinha maior probabilidade de desenvolver insuficiência cardíaca.
Os cientistas avaliaram dois marcadores já utilizados na cardiologia. O primeiro foi a troponina cardíaca I de alta sensibilidade, conhecida pela sigla hs-cTnI. Essa substância aumenta quando existem pequenas lesões no músculo cardíaco, mesmo que a pessoa não apresente sintomas. O segundo marcador foi o peptídeo natriurético tipo B N-terminal, identificado pela sigla NT-proBNP, uma substância produzida quando o coração está trabalhando sob maior esforço ou sobrecarga. Ambos podem ser medidos por meio de exames de sangue rotineiros.
Os resultados surpreenderam os pesquisadores. Entre as pessoas com pré-diabetes que apresentavam alteração em pelo menos um desses exames, o risco de desenvolver insuficiência cardíaca foi até dez vezes maior durante o período de acompanhamento, que durou pouco mais de três anos. Já entre os participantes sem pré-diabetes, esse aumento do risco foi muito menor.
Os pesquisadores observaram ainda outro aspecto importante. Quando os níveis desses marcadores aumentavam pelo menos 25% após um ano, o risco de insuficiência cardíaca também crescia de forma significativa. Isso sugere que acompanhar esses exames ao longo do tempo pode ajudar a identificar pessoas mais vulneráveis e permitir intervenções precoces.
Um dos pontos mais importantes do estudo é que a pré-diabetes, sozinha, não foi associada ao aumento do risco de insuficiência cardíaca. O problema parece surgir quando o aumento da glicose no sangue se combina com alterações silenciosas no coração, que normalmente passam despercebidas. Entre elas estão pequenas lesões no músculo cardíaco, a sobrecarga provocada pela pressão alta, o endurecimento das paredes do coração e danos nos pequenos vasos sanguíneos que irrigam o órgão.
Essas alterações costumam evoluir sem causar sintomas. A pessoa pode se sentir perfeitamente bem, enquanto o coração já apresenta sinais iniciais de desgaste. É justamente nesse ponto que os exames de sangue podem fazer a diferença, funcionando como um alerta precoce para que medidas preventivas sejam adotadas antes do aparecimento da doença.
Segundo os autores, os resultados mostram que existem grupos específicos de pessoas com pré-diabetes que precisam de um acompanhamento mais cuidadoso e individualizado. Com a identificação precoce do risco, é possível intensificar o controle da pressão arterial, da glicemia, do peso corporal e de outros fatores que influenciam a saúde do coração.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, com financiamento dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, conhecidos pela sigla NIH, que corresponde ao nome em inglês National Institutes of Health.
Para os pesquisadores, essa é apenas a primeira etapa de uma nova estratégia de prevenção. No futuro, esses biomarcadores poderão ajudar a prever não apenas a insuficiência cardíaca, mas também outros problemas cardiovasculares antes que eles se manifestem.