Na análise Weekly Macro View, produzida pela Galapagos Capital, o sócio e economista-chefe Claudio Ferraz explica que o principal foco de atenção da semana que passou, encerrada em 4 de maio, continua sendo o conflito entre Irã e Estados Unidos, especialmente em torno do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas para o transporte de petróleo no mundo. Também há sinais mais fortes de preocupação com a inflação global, cenário que vem reduzindo o espaço para cortes de juros e elevando a cautela dos bancos centrais.
Nos últimos dias, o Irã apresentou aos Estados Unidos uma proposta diplomática de 14 pontos, enviada por meio do Paquistão, condicionando o fim da guerra a um acordo mais amplo.
No entanto, o ex-presidente norte-americano Donald Trump sinalizou que dificilmente aceitará a proposta, afirmando que os iranianos ainda não pagaram um preço suficientemente alto.
Paralelamente, Trump anunciou o envio de apoio militar para navios retidos na região, com cerca de 15 mil soldados mobilizados, enquanto o Irã respondeu dizendo que reagirá caso tropas americanas entrem no estreito.
Segundo Ferraz, isso aumenta o risco de confronto direto e mantém o Estreito de Ormuz praticamente fechado, com centenas de embarcações retidas e forte impacto sobre o preço do petróleo Brent, que segue em níveis elevados.
A alta do petróleo acaba pressionando a inflação no mundo inteiro e influencia diretamente as decisões dos bancos centrais. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed), que é o banco central norte-americano, manteve a taxa de juros sem mudanças, mas o tom da reunião foi mais duro.
O presidente da instituição, Jerome Powell, indicou que o centro das decisões está migrando para uma posição mais neutra, o que significa menos espaço para cortes e até a possibilidade de novas altas de juros caso a inflação continue resistente.
O Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre cresceu 2%, com forte avanço do investimento privado, impulsionado principalmente pelo setor de inteligência artificial.
Além disso, o índice de inflação conhecido como Personal Consumption Expenditures (PCE), referência importante para o Fed, mostrou aceleração, enquanto o mercado de trabalho continua aquecido, com queda nos pedidos de seguro-desemprego e geração consistente de empregos.
Na Europa, o Banco Central Europeu (ECB, em inglês, European Central Bank) também manteve os juros, mas com um discurso mais rígido. A presidente Christine Lagarde afirmou que a economia está se afastando do cenário mais confortável e houve, inclusive, discussões internas sobre a possibilidade de alta de juros.
O mesmo movimento foi observado no Reino Unido e no Canadá, onde os bancos centrais também mantiveram as taxas, mas deixaram claro que a persistência da inflação e o petróleo caro podem exigir aperto monetário.
Para Claudio Ferraz, o ponto comum entre essas economias é que o dilema entre controlar a inflação e preservar o crescimento está cada vez mais difícil, fazendo com que os bancos centrais passem a considerar reações mais firmes aos choques externos.
No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, levando os juros para 14,50% ao ano, em linha com o esperado pelo mercado. Apesar disso, o comunicado manteve a sinalização de continuidade do ciclo de cortes, mas com maior incerteza sobre até onde essa redução poderá ir.
Ferraz avalia que ainda há espaço para mais um corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião, mas o risco de uma pausa já no fim do primeiro semestre aumentou. Isso porque a economia brasileira continua aquecida.
O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) registrou a criação de 228 mil vagas formais em março, enquanto a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) mostrou desemprego próximo das mínimas históricas e crescimento da renda real. Ao mesmo tempo, a situação fiscal preocupa, com a dívida bruta do setor público avançando para 80% do Produto Interno Bruto.
Para as próximas semanas, o economista destaca três pontos principais de atenção: a evolução do conflito no Oriente Médio, especialmente qualquer movimento envolvendo os 15 mil militares anunciados por Trump; a divulgação da ata do Copom, que pode ajudar o mercado a entender melhor o ritmo futuro da queda de juros no Brasil; e os novos dados do mercado de trabalho nos Estados Unidos, incluindo o Payroll, relatório oficial de geração de empregos, que pode reforçar ou aliviar a pressão sobre a política monetária americana.
Segundo Ferraz, o cenário continua exigindo cautela, já que geopolítica, inflação e juros seguem fortemente conectados e com impacto direto sobre investimentos, crescimento e preços no mundo inteiro.