O pedido da Casa Branca ao Pentágono, sobre novas opções de ataque ao Irã, voltou a pressionar o petróleo Brent, referência internacional para o preço da commodity, na quinta-feira (8 de outubro). O barril continua em patamar elevado, diante do risco de novos conflitos e de dificuldades no abastecimento. Segundo Claudio Ferraz, sócio e economista-chefe da Galapagos Capital, a tensão geopolítica continua influenciando os preços e aumentando a preocupação com os estoques de petróleo e a oferta de derivados, como gasolina e diesel. A análise faz parte da coluna Weekly Macro View.
Embora as exportações de petróleo do Golfo tenham apresentado sinais de recuperação para níveis anteriores à guerra, o aumento do volume enviado ao mercado não significa que o abastecimento voltou ao normal. Os ataques a petroleiros no Estreito de Ormuz, uma passagem estratégica para o transporte mundial de petróleo, ganharam intensidade nas últimas semanas. Além disso, os houthis, grupo armado do Iêmen, voltaram a atingir alvos na Arábia Saudita.
Outro fator de preocupação foi o esclarecimento da Agência Internacional de Energia (AIE) de que a liberação de 100 milhões de barris anunciada pelo Grupo dos Sete (G7), formado pelas principais economias industrializadas, não se soma ao volume já acordado em março. Na prática, a quantidade adicional de petróleo disponível para enfrentar uma eventual escassez é menor do que o mercado esperava.
O preço do petróleo é importante porque influencia os custos de transporte, produção e distribuição de mercadorias. Quando a commodity fica mais cara, empresas podem repassar parte desse aumento aos consumidores, pressionando a inflação. Esse cenário também dificulta o trabalho dos bancos centrais, que precisam controlar a alta dos preços sem prejudicar excessivamente a atividade econômica.
Nos Estados Unidos, a semana encerrada em 9 de outubro reforçou a expectativa de que o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, mantenha os juros na reunião de outubro, mas ainda possa voltar a elevá-los até o fim do ano. A ata da reunião de setembro indicou preocupação com a inflação e mostrou que a maioria dos dirigentes considerava provável uma nova alta, embora sem necessidade de agir imediatamente.
O dirigente do Fed Christopher Waller afirmou que, se os indicadores econômicos continuarem evoluindo como esperado, novas elevações dos juros poderão ser necessárias para levar a inflação de volta à meta de 2%. Segundo ele, os aumentos não precisam ocorrer em reuniões consecutivas, mas devem ser realizados em um prazo adequado.
Na avaliação de Ferraz, a direção da política monetária americana continua sendo de aperto, ou seja, de juros mais altos para conter a inflação. A diferença é que os aumentos podem acontecer de maneira mais espaçada, dependendo dos dados econômicos.
O mercado de trabalho ajuda a explicar essa perspectiva. Os pedidos de seguro-desemprego ficaram abaixo de 200 mil por quatro semanas consecutivas, uma sequência que, segundo a análise, não era registrada havia 25 anos. O dado sugere que as demissões continuam relativamente baixas e reduz o peso de um relatório de emprego mais fraco divulgado na semana anterior.
A inflação, por outro lado, segue preocupando. O indicador de preços pagos pelas empresas de serviços, calculado pelo Instituto de Gestão de Suprimentos (ISM, na sigla em inglês), atingiu o nível mais alto desde julho de 2022. Além disso, a expectativa de inflação para os próximos 12 meses, medida pelo Fed de Nova York, subiu para 3,9%, o maior patamar desde maio de 2023.
Diante desses sinais, Ferraz projeta uma nova alta dos juros americanos em dezembro e estima que o ciclo total de elevações possa ficar entre 75 e 125 pontos-base. Cada ponto-base corresponde a 0,01 ponto percentual. Assim, 100 pontos-base equivalem a um ponto percentual. Juros mais altos encarecem empréstimos e financiamentos, mas podem ajudar a reduzir o consumo e a demanda, contribuindo para conter os preços.
O economista explica que outro destaque da semana foi a alta dos juros dos títulos do Tesouro americano com vencimento em dez anos, conhecidos como Treasuries. As taxas voltaram ao maior nível desde 2002, refletindo preocupações com a inflação e com a situação fiscal dos países, ou seja, com a capacidade dos governos de equilibrar receitas e despesas.
Na França, a diferença entre os juros dos títulos públicos franceses e alemães chegou perto de 160 pontos-base. Essa distância, chamada de spread, indica quanto o mercado exige a mais para financiar um país em comparação com outro considerado referência. Quando ela aumenta, pode sinalizar maior percepção de risco.
O presidente do Banco da França afirmou que a solução para os problemas fiscais precisa vir de um orçamento confiável, e não do Banco Central Europeu. Para Ferraz, esse movimento pode indicar que os investidores estão cobrando maior disciplina dos governos, exigindo medidas concretas para controlar as contas públicas.
No Brasil, os preços dos ativos financeiros reagiram ao resultado do primeiro turno das eleições. Segundo Ferraz, a vantagem do candidato da oposição e os resultados iniciais das pesquisas para o segundo turno foram interpretados pelo mercado como um sinal de maior possibilidade de ajuste fiscal no próximo mandato.
A expectativa de ajuste fiscal significa que os investidores acreditam que o próximo governo poderá adotar medidas para melhorar as contas públicas, controlar o crescimento das despesas e reduzir as incertezas sobre a dívida do país. Essa perspectiva pode influenciar o valor do dólar, os juros e os preços dos títulos públicos.
Ferraz, porém, ressalta que uma mudança nas expectativas do mercado não significa que o ajuste fiscal já tenha acontecido. A reação dos investidores é uma antecipação baseada no cenário político, e sua continuidade dependerá das medidas que o próximo governo efetivamente apresentar e conseguir colocar em prática.
Na atividade econômica, os indicadores mostram sinais mais claros de desaceleração. A avaliação é de que o Produto Interno Bruto (PIB), que representa o conjunto de bens e serviços produzidos no país, poderá ter um terceiro trimestre mais fraco. Mesmo assim, o mercado de trabalho continua aquecido, o que pode dificultar uma redução mais rápida da inflação.
Os preços trouxeram um sinal de alerta adicional. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação brasileira, subiu 0,82% em setembro, segundo o resultado divulgado em 9 de outubro, acima das expectativas do mercado. A inflação acumulada em 12 meses também ultrapassou o limite superior da meta.
Além do índice geral, a composição da inflação preocupa. A média dos núcleos de inflação, medidas que procuram identificar tendências mais persistentes ao deixar de lado ou reduzir a influência de variações pontuais, passou de 4% para 4,6% na média móvel trimestral anualizada. Os serviços subjacentes, que ajudam a medir pressões de preços menos sujeitas a oscilações temporárias, também aceleraram.
Esses indicadores são importantes porque mostram se a inflação está perdendo força de maneira consistente ou se continua disseminada pela economia. Quando os preços de serviços e outros componentes persistentes avançam, o Banco Central pode precisar manter os juros elevados por mais tempo para evitar que a inflação permaneça acima da meta.
Até a semana encerrada em 9 de outubro, o Banco Central do Brasil não havia apresentado uma nova sinalização sobre os juros. Ferraz avalia que a orientação mais recente ainda permite esperar reduções graduais, em passos de 25 pontos-base, em vez de uma interrupção imediata do ciclo de cortes. A projeção da análise é de um novo corte em novembro, mas a continuidade dependerá da evolução dos indicadores econômicos e do cenário político e fiscal.
A perspectiva, portanto, é condicionada. Uma mudança no quadro eleitoral ou a apresentação de um plano fiscal considerado pouco confiável poderia levar a uma revisão da expectativa de cortes e até à possibilidade de uma pausa. Isso porque dúvidas sobre as contas públicas podem pressionar o câmbio e os juros, dificultando o controle da inflação.
Para as próximas semanas, três fatores devem concentrar a atenção dos mercados. No Brasil, o segundo turno das eleições, marcado para 25 de outubro, e as propostas econômicas do próximo governo serão importantes para avaliar se a melhora recente dos preços dos ativos financeiros poderá se sustentar.
Nos Estados Unidos, os novos dados de atividade e inflação ajudarão a definir a intensidade do ciclo de juros e a possibilidade de uma alta em dezembro. Já no Brasil, a reunião de novembro do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável por decidir a taxa básica de juros, terá de conciliar a inflação acima do limite da meta com sinais de desaceleração da economia.
Na avaliação de Claudio Ferraz, o desafio para os investidores e para os bancos centrais é entender até que ponto a inflação continuará resistente em um cenário de crescimento mais fraco e de incertezas geopolíticas. O petróleo, as decisões de juros e a credibilidade das políticas fiscais devem continuar entre os principais fatores que influenciam os mercados nas próximas semanas.