Economia
31/08/2026
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Petróleo recua, mas inflação mantém pressão sobre os juros globais

Redução das tensões no Oriente Médio, a trajetória do petróleo e da inflação nos Estados Unidos, além dos sinais de acomodação da atividade econômica no Brasil, são os principais pontos de atenção na área econômica, abordados na coluna semanal Weekly Macro View.

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Os sinais de desaceleração da economia brasileira convivem com inflação resistente, enquanto Estados Unidos e Europa se aproximam de novas decisões sobre os juros, explica o economista Claudio Ferraz, sócio da Galapagos Capital na coluna Weekly Macro View.

Segundo Ferraz, nos Estados Unidos, como esperado ao longo da semana encerrada em 28 de agosto, o governo formalizou a ameaça de ampliar a pressão econômica sobre o Irã e aplicou sanções contra diversas entidades. A primeira rodada, porém, foi mais branda do que o mercado temia. Nenhum grande banco chinês foi incluído nas medidas, e não houve um cronograma definido nem a indicação de países que seriam atingidos especificamente.

Ao mesmo tempo, avançaram as negociações mediadas por Omã para criar um corredor temporário de navegação no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas para o transporte mundial de petróleo. “Com isso, diminuiu, ainda que de forma moderada, o risco percebido de uma guerra de grandes proporções na região”, diz Ferraz.

O petróleo Brent, referência internacional para os preços da commodity, caiu cerca de 9% na semana encerrada em 28 de agosto, mas continua em nível elevado. Na avaliação de Ferraz, o risco permanece já que o tráfego pelo Estreito de Ormuz continua muito abaixo do normal e ainda existe a possibilidade de novas sanções contra empresas e países que mantenham relações com o Irã.

Nos Estados Unidos, a inflação continua sendo um problema para o Federal Reserve (Fed), o banco central americano. O principal indicador acompanhado pela instituição, o índice de preços das despesas de consumo pessoal (PCE), mostrou alta de 0,16% em julho. Em 12 meses, porém, a inflação acelerou para 3,7%. O chamado núcleo do PCE, que exclui itens mais voláteis e ajuda a identificar uma tendência mais persistente dos preços, subiu 0,25% no mês e acumulou alta de 3,3% em 12 meses.

Mesmo descontando o impacto de um componente mais volátil, os preços dos serviços, excluindo habitação, continuam elevados. Para o Fed, essa combinação não é confortável e dificulta a decisão sobre os próximos passos dos juros.

De acordo com o economista, a atividade econômica americana, por outro lado, continua mostrando força. A segunda leitura do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre manteve a estimativa de crescimento em 1,5%, mas revelou uma composição mais robusta. O consumo das famílias foi revisado para cima, para 3,4%, enquanto as vendas finais destinadas à demanda doméstica avançaram 4,2%, o maior ritmo em mais de três anos. Ao mesmo tempo, uma revisão preliminar da folha de pagamentos, conhecida como payroll, deve retirar cerca de 200 mil vagas da série, indicando que a economia americana criou menos empregos do que se imaginava. “A revisão, porém, aponta para um ritmo menor de contratação, e não para um aumento das demissões”, explica Ferraz.

Diante desse cenário, a decisão do Fed sobre os juros em setembro continua em aberto. Os próximos dados de inflação de agosto serão importantes, assim como as declarações de Kevin Warsh, presidente do Fed, em Jackson Hole.

Uma mensagem mais clara sobre a importância dos juros e sobre a disposição do banco central de agir poderia ser interpretada pelo mercado como uma postura mais dura, aumentando a expectativa de manutenção ou eventual alta dos juros. Já uma comunicação mais genérica tende a prolongar as incertezas, com possíveis efeitos sobre os juros de longo prazo e o dólar.

Na Europa, Isabel Schnabel, integrante do Banco Central Europeu (BCE), defendeu de forma explícita a necessidade de juros mais altos diante de uma economia resistente e de uma inflação que pode permanecer acima da meta de 2% por um período prolongado. O cenário também mantém no radar a possibilidade de movimentos de alta dos juros pelo Banco Central Europeu e pelo Banco do Japão em setembro.

No Brasil, a atividade econômica começa a mostrar sinais de acomodação, embora os indicadores ainda apresentem resultados diferentes entre si. A confiança do consumidor está em queda, enquanto o mercado de trabalho continua aquecido. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) mostra desemprego próximo das mínimas históricas e recuperação da renda real em julho, ou seja, da renda descontada a inflação.

Na inflação, explica Ferraz, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de agosto entrou em deflação, como já era esperado, mas a queda dos preços foi um pouco maior do que o previsto. Parte importante desse resultado, porém, veio de fatores temporários ou mais voláteis, como o bônus de Itaipu, a redução dos preços de energia, combustíveis e passagens aéreas. Por isso, o resultado geral não significa necessariamente uma melhora permanente do cenário de inflação.

A composição do índice também exige atenção. Apesar de alguma acomodação dos chamados núcleos de inflação, que procuram retirar efeitos temporários para mostrar uma tendência mais persistente dos preços, os serviços subjacentes continuam elevados. Além disso, as expectativas de inflação permanecem acima da meta e voltaram a subir nas projeções reunidas pelo relatório Focus, do Banco Central.

“Para os próximos dias, dois temas devem concentrar a atenção no exterior: a interpretação das declarações de Warsh em Jackson Hole e seus possíveis efeitos sobre os juros de longo prazo e o dólar, além dos novos dados de inflação de agosto nos Estados Unidos e das declarações de outros dirigentes do Fed”, diz Ferraz.

No Brasil, o mercado deverá acompanhar principalmente a combinação entre uma atividade econômica mais fraca, uma possível reaceleração da inflação a partir de setembro e o aumento da atenção sobre o cenário eleitoral.

“Com a aproximação do início da campanha, novas pesquisas de opinião também devem ganhar espaço e aumentar a influência das expectativas políticas sobre as decisões dos investidores”, analisa Claudio Ferraz.

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