A retomada do conflito no Oriente Médio voltou a preocupar os mercados financeiros e pode trazer reflexos para a economia mundial. A avaliação é da coluna Weekly Macro View, produzida por Claudio Ferraz, sócio e economista-chefe da Galapagos Capital. Segundo o economista, o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã não se sustentou e os confrontos voltaram a se intensificar na semana encerrada em 17 de julho, aumentando o risco de alta nos preços da energia.
De acordo com a análise, o Irã atacou bases militares na região do Golfo, enquanto os Estados Unidos restabeleceram o bloqueio naval aos portos iranianos e realizaram novos ataques contra alvos no país. Além disso, há preocupações de que o grupo Houthis, do Iêmen, possa interromper a navegação no Mar Vermelho, uma das principais rotas do comércio internacional.
Caso isso aconteça, duas importantes passagens marítimas para o transporte de petróleo poderão ser afetadas ao mesmo tempo: o Estreito de Ormuz e Bab el-Mandeb. Como consequência, aumenta o risco de interrupção no fornecimento global de energia. Diante desse cenário, o petróleo tipo Brent acumulou alta superior a 10% na semana.
A preocupação surge justamente em um momento em que a inflação vinha apresentando sinais de melhora. Nos Estados Unidos, os indicadores de junho mostraram que os preços subiram menos do que o esperado, reduzindo a preocupação imediata com uma nova aceleração da inflação.
Entre os indicadores, o Índice de Preços ao Consumidor (Consumer Price Index – CPI) apresentou resultado abaixo das expectativas. Já o Índice de Preços ao Produtor (Producer Price Index – PPI), que mede a inflação no atacado, também surpreendeu positivamente. Esses resultados reforçaram a expectativa de que o Índice de Gastos com Consumo Pessoal (Personal Consumption Expenditures – PCE), principal indicador de inflação acompanhado pelo Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano, também venha mais comportado.
Segundo Claudio Ferraz, esse cenário diminuiu as apostas de que o Fed aumentaria os juros já em julho. No entanto, a possibilidade de uma nova alta até o fim do ano continua no radar, dependendo da evolução da inflação nos próximos meses.
Na avaliação do economista, as declarações recentes de dirigentes do Fed mostram que ainda não existe consenso dentro da instituição. Enquanto alguns acreditam que a inflação já está sob controle, outros defendem cautela por entenderem que os preços continuam acima da meta de 2% ao ano.
Por isso, a análise resume o cenário americano com a expressão “hold or hike”, ou seja, manter os juros no nível atual ou elevá-los novamente, caso a inflação volte a ganhar força.
A economia dos Estados Unidos também continua mostrando resiliência. As vendas do comércio em junho vieram acima do esperado, indicando que o consumo das famílias permanece aquecido, mesmo com juros elevados.
Na China, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 4,3% no segundo trimestre, dentro da meta do governo. Segundo a análise, a indústria e as exportações seguem fortes, mas o consumo das famílias e o setor imobiliário continuam apresentando dificuldades. Com isso, diminui a necessidade de novos estímulos econômicos no curto prazo.
No Brasil, os dados mais recentes também mostraram uma desaceleração da inflação. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de junho ficou abaixo das expectativas, levando o mercado a reduzir a projeção para a inflação de 2026 no Boletim Focus.
Apesar da melhora, Claudio Ferraz destaca que as expectativas para a inflação de longo prazo continuam elevadas. Ao mesmo tempo, a economia brasileira mostra uma desaceleração gradual. Os setores de comércio e serviços perderam ritmo, enquanto a indústria permanece mais resistente.
Para a Galapagos Capital, esse cenário ainda exige cautela por parte do Banco Central do Brasil (BC). Embora o mercado continue esperando um corte na taxa básica de juros em agosto, a combinação entre a alta recente do petróleo, as incertezas internacionais e a persistência da inflação recomenda prudência antes de iniciar um ciclo de redução dos juros.
Segundo a Weekly Macro View, três fatores devem concentrar a atenção dos investidores nas próximas semanas: a evolução do conflito no Oriente Médio e seus impactos sobre o preço do petróleo, as decisões dos principais bancos centrais do mundo e o comportamento da economia brasileira, especialmente da inflação e da percepção de risco do país.