Saúde
24/02/2026
0 Comentário(s)

Quase metade das mortes por câncer no Brasil poderia ser evitada, aponta estudo global

Pesquisa publicada na revista científica The Lancet mostra que prevenção, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento poderiam salvar mais de 100 mil vidas no País.

Um estudo publicado na revista científica The Lancet estima que 43,2% das mortes por câncer no Brasil poderiam ser evitadas com medidas de prevenção, diagnóstico precoce e acesso adequado ao tratamento. Na prática, isso significa que quase metade das vidas perdidas para a doença poderia ser preservada com ações já conhecidas pela medicina.

A pesquisa, intitulada “Mortes evitáveis por meio da prevenção primária, detecção precoce e tratamento curativo do câncer no mundo”, analisou dados de 35 tipos de câncer em 185 países. O trabalho foi assinado por 12 pesquisadores, oito deles ligados à Agência Internacional para Pesquisa em Câncer, órgão vinculado à Organização Mundial da Saúde e sediado em Lyon, na França.

No Brasil, o estudo estima que, entre os casos de câncer diagnosticados em 2022, cerca de 253,2 mil devem resultar em morte até cinco anos após a descoberta da doença. Desse total, aproximadamente 109,4 mil mortes poderiam ser evitadas.

Os pesquisadores explicam que essas quase 110 mil mortes evitáveis se dividem em dois grupos. Em 65,2 mil casos, a doença poderia ter sido prevenida, ou seja, nem chegaria a se desenvolver. Outras 44,2 mil mortes poderiam ser evitadas com diagnóstico mais cedo e tratamento adequado no tempo certo.

No mundo, a média de mortes evitáveis por câncer é ainda maior: 47,6%. Isso significa que, dos 9,4 milhões de óbitos registrados, quase 4,5 milhões poderiam não ter ocorrido.

Segundo o estudo, uma em cada três mortes por câncer no planeta, o equivalente a 33,2%, poderia ser prevenida. Além disso, 14,4% dos óbitos poderiam ser evitados se os pacientes tivessem acesso a diagnóstico precoce e tratamento eficaz.

Ao analisar as causas, os pesquisadores destacam cinco principais fatores de risco: tabagismo, consumo de álcool, excesso de peso, exposição à radiação ultravioleta e infecções, como as provocadas pelo HPV, vírus das hepatites e pela bactéria Helicobacter pylori.

A publicação aponta que 59,1% das mortes evitáveis estão concentradas nos cânceres de pulmão, fígado, estômago, intestino (colorretal) e colo do útero.

Entre os casos que poderiam ser evitados apenas com medidas de prevenção, o câncer de pulmão lidera. Foram 1,1 milhão de mortes, o que representa 34,6% de todas as mortes preveníveis por câncer no mundo.

Já entre as mortes consideradas tratáveis, ou seja, que poderiam ser evitadas com diagnóstico no momento certo e acesso a tratamento adequado, o câncer de mama em mulheres aparece em primeiro lugar. Foram cerca de 200 mil mortes, o equivalente a 14,8% dos casos nesse grupo.

Os autores reforçam a importância de prevenir infecções associadas ao câncer, como o HPV, que pode ser evitado por meio de vacinação. Também destacam a necessidade de ampliar metas de rastreamento e diagnóstico precoce do câncer de mama.

As diferenças entre os países são marcantes. Nos países com baixo e médio Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), indicador da Organização das Nações Unidas que considera saúde, educação e renda, o câncer de colo do útero é o principal entre as mortes evitáveis.

Já nos países com IDH alto e muito alto, esse tipo de câncer não aparece entre os cinco com maior número de mortes evitáveis. Em nações com IDH muito alto, a taxa é de 3,3 mortes por 100 mil mulheres. Nos países de IDH baixo, esse número sobe para 16,3 por 100 mil.

Nos países com baixo IDH, onde as condições de vida são mais precárias, 60,8% das mortes por câncer poderiam ter sido evitadas. Em seguida aparecem os países de IDH alto, com 57,7%, médio, com 49,6%, e muito alto, com 40,5%. O Brasil ocupa a 84ª posição no ranking, com IDH de 0,786, em uma escala que vai de 0 a 1.

Na América do Sul, 43,8% das mortes por câncer são consideradas evitáveis, percentual semelhante ao brasileiro. No Norte da Europa, os índices ficam próximos de 30%. A melhor situação é a da Suécia, com 28,1%, seguida por Noruega, com 29,9%, e Finlândia, com 32%. Nesses países, cerca de três em cada dez mortes poderiam ser evitadas.

Os menores percentuais também aparecem na Austrália e na Nova Zelândia, ambas com 35,5%, além da América do Norte, com 38,2%.

No extremo oposto, as maiores proporções de mortes evitáveis estão em países africanos. A pior situação é a de Serra Leoa, onde 72,8% das mortes poderiam ser evitadas. Em seguida aparecem Gâmbia, com 70%, e Malaui, com 69,6%.

Nesses locais, sete em cada dez mortes por câncer poderiam ser evitadas com mais prevenção, diagnóstico adequado e acesso a tratamento. As maiores proporções de mortes evitáveis estão concentradas na África Oriental, África Ocidental e África Central, o que reforça como as desigualdades de renda, educação e acesso à saúde influenciam diretamente as chances de sobreviver à doença.

Proteja-se com a