Diante do período de maior incidência da dengue no Brasil, entre o início de março e o fim de maio, hora de intensificar a prevenção contra a doença. De acordo com o estudo InfoDengue, realizado em parceria pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pela Fundação Getulio Vargas (FGV), a expectativa é de que o Brasil registre cerca de 1,8 milhão de casos de dengue entre outubro de 2025 e outubro de 2026. A pesquisa reúne dados epidemiológicos, climáticos e estatísticos para projetar a evolução da doença e pode ser consultada no site oficial do sistema: https://info.dengue.mat.br/.
Segundo os pesquisadores, um dos principais fatores por trás desse cenário é o clima. O aumento das temperaturas, períodos de calor intenso e até oscilações bruscas, com episódios de frio fora do padrão, criam condições favoráveis para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue. Esse mosquito se desenvolve mais rapidamente em ambientes quentes e com água parada, o que amplia o risco de surtos.
Outro ponto de atenção é a circulação de diferentes tipos do vírus da dengue. Nos últimos anos, houve predominância do chamado sorotipo 2. Agora, os dados indicam maior circulação do sorotipo 3, que pode se espalhar pelo território nacional. Como grande parte da população ainda não teve contato com esse tipo específico do vírus, há menor imunidade coletiva, o que aumenta o risco de infecções mais graves.
Os números recentes reforçam o alerta. Segundo o Ministério da Saúde, em 2026 o país já soma 9.667 casos prováveis de dengue, com três óbitos ainda em investigação. Em 2025, foram registrados 1.665.793 casos prováveis e 1.780 mortes. O impacto foi especialmente severo em São Paulo: somente em 2024, quase um terço das mortes por dengue no Brasil ocorreu no estado, que contabilizou 2.137 óbitos.
A dengue é uma doença viral transmitida pela picada do Aedes aegypti e provoca sintomas como febre alta, dor atrás dos olhos, dores no corpo, manchas avermelhadas na pele, coceira, náuseas e dores musculares e nas articulações. A principal forma de prevenção continua sendo o combate ao mosquito, com a eliminação de água parada em recipientes como pratos de plantas, pneus e caixas d’água destampadas.
Além da prevenção, a vacinação passa a ter papel central no enfrentamento da doença. Para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, segue disponível no Sistema Único de Saúde a vacina QDenga, de origem japonesa, aplicada em duas doses nas Unidades Básicas de Saúde.
Já a vacina Butantan-DV representa uma inovação: é o primeiro imunizante contra a dengue em dose única no mundo e protege contra os quatro sorotipos do vírus.
Desenvolvida pelo Instituto Butantan, em parceria com a empresa chinesa WuXi Vaccines e com articulação do Ministério da Saúde, a Butantan-DV utiliza a tecnologia de vírus vivo atenuado. Estudos clínicos realizados entre 2016 e 2024, com mais de 16 mil voluntários em 14 estados, mostraram eficácia de 74% contra casos gerais da doença, mais de 91% contra casos graves e 100% na prevenção de hospitalizações.
Importante ressaltar que o Sistema Único de Saúde (SUS) não tem vacina suficiente para todos brasileiros. Também não disponibiliza o teste de dengue para todos, mesmo considerando que a dengue é um problema de saúde pública, por falta de saneamento básico e falta de controle de focos de mosquito.
A vacinação piloto da vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan começou em janeiro nos municípios de Botucatu (SP), Maranguape (CE) e Nova Lima (MG). Ao todo, 204,1 mil doses foram distribuídas para essas cidades, quantidade suficiente para vacinar a população-alvo entre 15 e 59 anos. A escolha dos municípios levou em conta o tamanho da população, o histórico de vacinação e a proximidade com grandes regiões metropolitanas. A meta do Ministério da Saúde é alcançar 40% de cobertura vacinal nesse grupo etário.
Paralelamente, o Instituto Butantan iniciou novos estudos para ampliar o uso da vacina. Estão sendo recrutados voluntários entre 60 e 79 anos para avaliar a segurança e a resposta imunológica do imunizante nessa faixa etária. A vacina já foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para pessoas de 12 a 59 anos e incorporada ao Programa Nacional de Imunizações, com previsão de ampliação gradual conforme a produção avance.
A expectativa do Ministério da Saúde é que, com a transferência de tecnologia e o aumento da capacidade produtiva, a fabricação da vacina possa crescer até 30 vezes, permitindo a ampliação da vacinação para todo o país. Diante da projeção de novos surtos, especialistas reforçam que a combinação entre prevenção, vigilância e imunização será decisiva para reduzir o impacto da dengue nos próximos anos.