Saúde
31/03/2026
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Caneta identifica câncer em até 10 segundos durante cirurgia

Tecnologia em teste no Hospital Israelita Albert Einstein pode ajudar médicos a remover tumores com mais precisão e reduzir o tempo de cirurgia.

O Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, conduz o primeiro estudo clínico fora dos Estados Unidos com o equipamento conhecido como MasSpec Pen. A tecnologia foi desenvolvida pela química Lívia Schiavinato Eberlin, professora da Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos, e já é chamada de “caneta que detecta câncer”. O dispositivo consegue identificar se um tecido é saudável ou cancerígeno em apenas 10 segundos, ainda durante a cirurgia.

O estudo brasileiro ocorre em parceria com a Thermo Fisher Scientific, responsável pelo espectrômetro de massas que permite a leitura molecular do tecido.

Com duração de 24 meses, a pesquisa acompanha, desde 2025, o total de 60 pacientes com câncer de pulmão e de tireoide, escolhidos por serem tumores de mais fácil acesso cirúrgico e com algoritmos de detecção mais avançados. Os resultados serão comparados ao exame tradicional de biópsia, em que uma amostra do tecido é retirada e analisada em laboratório ao microscópio.

A MasSpec Pen funciona conectada a um espectrômetro de massas, equipamento capaz de identificar as moléculas presentes em uma substância. Durante a cirurgia, ao encostar a ponta da caneta no tecido, o aparelho libera uma microgota de água que absorve moléculas como lipídios, metabólitos e fragmentos de proteínas.

Essa gota é rapidamente aspirada por um tubo e levada ao espectrômetro, que analisa a composição química em tempo real. O equipamento utilizado no estudo é o espectrômetro de massas Orbitrap 240, que recebe e interpreta os dados coletados pela caneta.

Na prática, o aparelho identifica quais moléculas estão presentes no tecido e em que quantidade. Essa mesma tecnologia já é usada em investigações forenses, controle de qualidade de alimentos e exames antidoping, mas agora foi adaptada para uso médico.

Um dos maiores desafios em cirurgias de câncer é definir exatamente até onde o tumor se estende. O cirurgião precisa retirar todo o tecido doente sem remover partes saudáveis em excesso, o que pode comprometer funções do organismo.

Hoje, esse processo é mais demorado. O médico retira uma amostra, que é congelada, cortada em lâminas e analisada ao microscópio. Esse exame pode levar de 20 minutos a uma hora e meia, período em que o paciente permanece anestesiado e a cirurgia fica em espera. Se ainda houver células cancerígenas nas bordas do material retirado, o cirurgião precisa voltar e remover mais tecido, aumentando o tempo de operação e o risco de complicações.

Segundo Lívia Eberlin, mesmo patologistas experientes podem ter dificuldade em avaliar com precisão essas margens, já que o congelamento pode distorcer o tecido. Retirar menos do que o necessário aumenta o risco de o câncer voltar, enquanto retirar demais pode prejudicar funções importantes, como a respiração.

A tecnologia já foi testada em um estudo publicado na revista científica JAMA Surgery em agosto de 2023, com 102 pacientes submetidos a cirurgias de tireoide e paratireoide. O resultado mostrou uma precisão superior a 92,4%.

O estudo também indicou que a caneta consegue diferenciar tecidos muito semelhantes em tempo real, evitando a retirada de glândulas saudáveis, um problema que ocorre em até 25% das cirurgias tradicionais.

As próximas etapas incluem testes em tumores de mama, fígado e ovário, onde a tecnologia já demonstrou bons resultados em laboratório.

Atualmente, Lívia Eberlin lidera uma equipe na Baylor College of Medicine e também está à frente da empresa MS Pen Technologies, que desenvolve e pretende comercializar o equipamento.

Após a conclusão do estudo, a tecnologia deverá ser submetida à aprovação da Food and Drug Administration e, posteriormente, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Além de detectar o câncer, os pesquisadores querem avaliar se a caneta também pode identificar o perfil imunológico dos tumores. Hoje, esse tipo de informação só é obtido dias após a cirurgia, com exames mais complexos.

Tumores chamados de “quentes” costumam responder melhor à imunoterapia, tratamento que estimula o sistema imunológico a combater o câncer. Já os “frios” são mais resistentes e exigem combinações com quimioterapia, radioterapia ou outros medicamentos.

A expectativa é que a caneta consiga identificar essas características em tempo real, analisando as moléculas do tecido. Isso pode ajudar médicos a tomar decisões mais rápidas e precisas durante a cirurgia.

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