Saúde
13/01/2026
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Anvisa aprova novo medicamento contra o Alzheimer e abre uma nova fase no tratamento no Brasil

Liberação do Leqembi marca avanço inédito no combate à doença, com impacto direto na rotina de famílias, profissionais de saúde e no planejamento do sistema de saúde.

A aprovação de um novo medicamento contra o Alzheimer no Brasil sinaliza uma mudança concreta no tratamento de uma doença que afeta milhões de pessoas e transforma profundamente a vida das famílias.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o uso do Leqembi, indicado para pacientes diagnosticados na fase inicial da doença de Alzheimer. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União em 22 de dezembro e coloca o Brasil no grupo de mercados que passam a contar com uma terapia voltada não apenas aos sintomas, mas ao mecanismo biológico da doença.

A aprovação do Leqembi no Brasil representa um marco importante. Além de uma nova opção terapêutica, reforça a necessidade de diagnóstico precoce, planejamento de longo prazo e discussão sobre acesso a tratamentos inovadores em uma doença que impacta diretamente a rotina das famílias, das empresas e de toda a sociedade.

Atualmente, o Alzheimer afeta mais de 55 milhões de pessoas no mundo e compromete a autonomia do paciente, a rotina de cuidadores e o planejamento financeiro das famílias. Trata-se de uma doença causada pelo acúmulo de placas amiloides no cérebro, aglomerados tóxicos de proteínas que levam à morte dos neurônios e, com o tempo, à demência. Essas alterações impactam atividades básicas do dia a dia, como memória, tomada de decisões e independência, exigindo acompanhamento constante e custos crescentes com saúde.

O Leqembi é produzido a partir do anticorpo lecanemabe e foi desenvolvido para retardar o declínio cognitivo em pessoas que já apresentam demência leve causada pela doença de Alzheimer. Segundo o registro aprovado pela Anvisa, o medicamento atua reduzindo as placas beta-amiloides no cérebro, consideradas uma das principais características da doença. O produto é administrado por infusão intravenosa, após diluição, e exige acompanhamento médico especializado.

Nos Estados Unidos, onde o lecanemabe já foi aprovado pela Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos, chamada Food and Drug Administration (FDA), o medicamento é visto como um avanço relevante, embora ainda cercado de debates.

O preço de referência no mercado norte-americano gira em torno de US$ 26,5 mil por ano de tratamento, o que reforça a discussão sobre acesso, custo e impacto nos sistemas de saúde.

Após a aprovação regulatória, a chegada efetiva do medicamento às farmácias costuma levar alguns meses, dependendo de etapas como definição de preço, importação, logística e acordos comerciais.

No Brasil, especialistas estimam que esse processo também possa levar de seis meses a um ano após a liberação da Anvisa.

Do ponto de vista científico, o lecanemabe faz parte de uma nova geração de terapias com anticorpos antiamiloides. Um anticorpo é formado por duas regiões que trabalham em conjunto.

Uma delas reconhece e se liga ao alvo específico, no caso as placas amiloides. A outra, chamada fragmento Fc, é responsável por acionar o sistema imunológico. Estudos recentes demonstraram que esse fragmento é essencial para que a micróglia, célula de defesa do cérebro, seja ativada e consiga remover as placas de forma mais eficiente.

Pesquisas lideradas pelo professor Bart De Strooper mostraram que, sem o fragmento Fc, o anticorpo não produz efeito relevante. A médica Giulia Albertini, uma das autoras do estudo, explica que essa foi a primeira demonstração clara de como a terapia funciona na prática.

Segundo ela, o fragmento Fc atua como uma âncora que permite à micróglia se ligar às placas e ser reprogramada para eliminá-las com maior eficiência, ajudando a desacelerar a progressão da doença.

A Anvisa avaliou a eficácia clínica do medicamento com base em um estudo principal que envolveu 1.795 pessoas com Alzheimer em estágio inicial, todas com presença de placas s-amiloides no cérebro. Os participantes receberam o Leqembi ou placebo e foram acompanhados por dezoito meses.

A principal medida de eficácia foi a mudança nos sintomas avaliada pela escala Clinical Dementia Rating – Sum of Boxes (CDR-SB), usada para medir a gravidade da doença e o impacto na vida diária. No grupo analisado, os pacientes tratados com o medicamento apresentaram progressão mais lenta dos sintomas em comparação aos que receberam placebo.

No Brasil, pesquisas recentes também vêm reforçando a importância da inflamação cerebral no desenvolvimento do Alzheimer. Um estudo apoiado pelo Instituto Serrapilheira e liderado pelo neurocientista Eduardo Zimmer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mostrou que o cérebro precisa estar inflamado para que a doença se estabeleça e progrida.

Segundo o trabalho, publicado na revista Nature Neuroscience, o acúmulo das proteínas beta-amiloides só desencadeia uma resposta mais agressiva quando a micróglia também está ativada, o que ajuda a explicar a progressão da doença em pacientes vivos.

Esses achados ampliam a compreensão sobre o Alzheimer e apontam para novas possibilidades de tratamento no futuro, que podem ir além da remoção das placas e buscar interferir na comunicação entre as células do sistema imune do cérebro.

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