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Foto: AutoPapo Fonte: AutoPapo

Número de mortes no trânsito brasileiro pode ser muito maior que o anunciado

Especialista canadense explica que existem países onde autoridades acompanham o quadro de saúde dos acidentados por um ano para obter estatísticas fiéis
14/03/2019

A engenheira civil especialista em tráfego e desenho de estradas Geni Brafman Bahar trabalha para melhorar as vias e prevenir acidentes de trânsito no Canadá. Sua função é agregar uma visão humana à engenharia. Ao modificar os desenhos das ruas, a profissional que nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, se preocupa em facilitar a compreensão dos motoristas e pedestres, diminuir os erros humanos e aumentar a segurança no tráfego. Questionamos a engenheira sobre alguns itens relacionados ao tema e traçamos um parâmetro entre Canadá e Brasil.

Em primeiro lugar, a especialista chama atenção para a preocupação do país norte-americano em entender o número real de vítimas fatais. “No Canadá, as autoridades não fecham um boletim de ocorrência antes de 30 dias após o acidente. O padrão serve para garantir que as estatísticas retratem com fidelidade as mortes e a gravidade dos acidentes de trânsito no Estado”, explica.

“Para uso geral na administração de programas de segurança rodoviária, o período especificado é de 30 dias. Essa regra de contagem de fatalidade é adequada para a maioria das aplicações, mas outras são necessárias para atender a requisitos específicos. Um parâmetro de 12 meses para a contagem de fatalidades é usada de acordo com os procedimentos da Organização Mundial de Saúde adotados para relatórios de estatísticas vitais nos Estados Unidos. A experiência indica que, das mortes por acidentes de trânsito que ocorrem dentro de 12 meses, cerca de 99,5% ocorrem em 90 dias e cerca de 98% ocorrem em 30 dias”, explica o Manual de Classificação de Acidentes de trânsito do American National Standard.

No Brasil, segundo a assessoria de comunicação da Polícia Rodoviária Federal (PRF), as mortes contabilizadas são aquelas que acontecem durante os acidentes: “os dados da PRF se referem apenas dos óbitos constatados imediatamente no acidente. Até mesmo porque o óbito posterior ao acidente, mas em decorrência dele, depende de perícia”. Esse fato mostra que o número de vítimas fatais no Brasil é subestimado.

A assessoria da PRF explicou ainda que existem outros órgãos que podem fazer o acompanhamento das vítimas e contabilizar as mortes em decorrência de acidentes, como o Ministério da Saúde. Questionado, o órgão não respondeu por quanto tempo acompanhas as vítimas de acidentes de trânsito.

Mesmo com dados falhos, já que só sabemos quantas pessoas perderam a vida durante os acidentes de trânsito, o número de mortes brasileiro é muito diferente do canadense. Em 2016, quando foi realizado o último levantamento do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, o Brasil registrou 37.345 mortes no trânsito. No mesmo período, o Canadá perdeu 1.895 vidas pelo mesmo motivo.

Impressões sobre o trânsito brasileiro

Em viagem ao Brasil, Geni Bahar afirma perceber pouca atenção dos motoristas aos pedestres, motociclistas e sinais. “É comum observar condutores ultrapassando uma placa de pare e tendo pouca atenção aos mais vulneráveis, como ciclistas”, comenta.

A especialista diz ainda que impressiona a falta de uma faixa específica para motociclistas, já que eles existem em grande quantidade por aqui. “Acho que o trânsito está injusto e muito perigoso para os motociclistas. Tem que haver mais atenção por parte das autoridades. Não fico surpresa que as estatísticas sejam tão tristes”, lamenta a engenheira.

Das 37,3 mil mortes que ocorreram no trânsito do Brasil em 2016, as motocicletas foram responsáveis por 12,1 mil, de acordo com as informações do Observatório Nacional de Segurança Viária.

Os veículos de duas rodas também foram responsáveis por 74% de todas as indenizações do DPVAT (Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre).

Brasil x Canadá
Lei do farol baixo

Segundo a especialista, no Canadá os carros já vêm com farol de rodagem diurna (DRL), farol automático e ou sensor crepuscular há mais de 25 anos. Por isso, não há necessidade de uma normatização semelhante à lei do farol baixo.

Renovação de CNH

Assim como no Brasil, no Canadá é preciso renovar a carteira de motorista a cada cinco anos. O processo, no entanto, é diferente. Os condutores canadenses não precisam passar pelos exames médicos. Isso porque os médicos do país são obrigados a relatar qualquer condição médica que influencie na condição de dirigir.

No país norte-americano, apenas depois dos 80 anos os motoristas precisam fazer testes de anuais. Por aqui, a idade mínima para renovação de CNH a cada três anos deve passar para 70 anos, mas ainda é de 65.

Carteira provisória e limite

Diferente do Brasil, onde os recém-condutores precisam passar por um período probatório de 12 meses sem cometer uma infração gravíssima ou duas médias, os motoristas canadenses precisam passar por três estágios de licença.

A mais simples, G1, exige que o condutor esteja acompanhado de uma pessoa com mais de quatro anos de carteira G (CNH convencional) para dirigir. Além disso, o motorista não pode ter ingerido álcool, trafegar entre 00h e 05h da manhã e dirigir em rodovias.

A segunda, G2, também exige que o motorista não tenha resquícios de álcool no sangue e apresenta menos tolerância com infrações. A mais completa, G, aceita uma 0.08% de álcool no sangue e tem tolerância de 15 pontos em infrações.

No Brasil, o limite para cassação da CNH é de 20 pontos em infrações.

Lei seca

No Canadá, a tolerância de álcool no sangue não é zero. Lá, o motorista pode apresentar até 0.08% de concentração da substância. Mas Geni Bahar não vê a tolerância zero com maus olhos: “é uma determinação bem definida”.

Sugestões para um trânsito melhor

O caminho para melhorar os índices de acidentes e mortes de trânsito é, segundo a especialista, realizar campanhas educacionais e planos de segurança integrados:

“Não é o ideal criar leis ou normas com base no que você acha, como engenheiro, que vai apresentar bons resultados. É preciso estudar as consequências diretas e indiretas de cada determinação a ser implantada. Não é uma coisa trivial, é necessário pesquisar exaustivamente se existem outras experiências parecidas”, insiste a especialista.

Outra questão relevante é o treinamento de engenheiros para desenvolvimento de estatísticas de previsão de acidentes. “Hoje, os tipos de rodovia e de sinalização já indicam a gravidade de seus possíveis acidentes de trânsito”, finaliza.

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